mi buenos aires querido

Minha lembrança mais gostosa de Buenos Aires não foi o ceviche delicioso, com gosto de mar, que a gente comeu naquele restaurante peruano bem simplesinho, com santos na parede e uma goteira no telhado. Também não foi o meu deslumbramento ao andar pela Defensa e ver todas as fachadas de lojas lindamente pintadas com o fileteado porteño, que há tanto tempo eu admirava só de longe. Meu dedo não parava quieto no disparador da câmera. Também não foi quando encontrei Mafalda, pequenininha feito a criança de 4 anos que é, sentada no banquinho, sendo protegida da chuva pelos turistas apaixonados que paravam pra tirar uma foto com ela.

Minha lembrança mais gostosa não foi do show de tango lindo e exagerado que assistimos no teatro do Centro Cultural Borges. Nem os vários sorvetes de dulce de leche, ou as medialunas no café da manhã, ou as empanadas a qualquer hora do dia, em qualquer esquina.

Minha lembrança favorita poderia ter sido a catarse coletiva do show de Arcade Fire, quando eu, mesmo sem poder pular, fui levantada do chão pela massa de gente que se apertava por todos os lados, e por alguns segundos esqueci que existia isso de gravidade. Ou o dia em que a gente almoçou meio tarde, com uma bela garrafa de vinho pra acompanhar, e ficamos até a hora do jantar rindo, falando besteira e sendo apaixonados no quarto do hotel. Essas duas chegaram perto. Mas a lembrança mais gostosa aconteceu no último dia na cidade.

Depois de assistir a um monte de desenhos animados da década de 60, relíquias que não sei se vou ver de novo em lugar nenhum da vida, que faziam parte de um festival de cinema independente que começava aquele dia (vejam que sorte!), ficamos com preguiça de fazer qualquer coisa, mas não dava pra voltar pra o hotel, a tarde estava tão linda. Aí a gente comprou um casquinho de dulce de leche na McDonalds e sentamos de frente pra o boulevard do Shopping Recoleta, olhando a vida passar. Colegiais de uniforme que pareciam saídos de uma novela das seis, bebês curiosos botando a cabeça pra fora de seus carrinhos, jovens saindo do trabalho com cara de que iam aproveitar muito o final de semana, casais adolescentes sendo adolescentes.

O dia estava lindo, o boulevard era como eu queria que fossem todas as ruas de todas as cidades (agradável, largo, cheio de árvores e com muita gente interessante passando por ele), e poucas vezes na vida eu senti tanta calma. Como se a vida fosse só aquilo ali, e estivesse bom.

Não tirei nenhuma foto dessa tarde, desse lugar. Mas é o que me lembro em mais detalhes. O sol baixando, o vento, os cheiros, o gosto do sorvete.

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(soundtrack: Pomplamoose – Makin Out)

para o ano

ontem foi meu primeiro dia útil de 2014. Depois da loucura que foi dezembro, eu merecia uns bons 20 dias de descanso, pra botar os seriados em dia, fazer um pouquinho de nada e pensar no que vai ser a vida daqui pra frente.

tomei o primeiro banho de mar do ano nas águas inquietas de Pipa — não sei se eu já falei isso aqui: nada contra Maragogi e praias com piscininhas naturais, mas eu AMO um mar mais agitado, quase violento, daqueles que você entra sabendo que vai levar uma surra e voltar pra a areia com as pernas moles e morrendo de sono, um mar com aquelas ondas que batem tão forte que não fica mazela nenhuma dentro de você.

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pipa4pipa5quando voltei pra casa, fizemos, eu e Bernardo, nossa nova mesa de jantar! o projeto estava engavetado desde outubro, esperando aparecer o tempo livre, e finalmente ela saiu do papel e virou de verdade. e vou dizer, é nessas horas que eu tenho certeza que é amor e que vai durar muito: quando a gente passa uma semana inteira cortando e lixando e furando madeira, sem nenhuma briguinha sequer, sem culpar o outro quando uma coisinha dá errado, terminando os dias com aquele sentimento feliz de fazer uma coisa massa juntos (por sinal, talvez em breve aceitemos encomendas pra essas e outras coisinhas de madeira!).

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mas a farra acabou, o ano tem que começar, e eu quero fazer coisas, e não pretendo deixar a rotina de escritório me tirar o foco dessa vez. então, mais ou menos por ordem de importância, aí vai a listinha do que eu quero pra 2014, a mais honesta que já fiz até hoje:

. aprender a dirigir. já passou da hora, né.

. (pelo menos começar a) botar pra frente meu plano de ganhar a vida fazendo coisas.

. tirar a poeira do sketchbook e voltar a escrever no meu blog de ilustração e projetos experimentais, regularmente. já acabei o mestrado, tenho materiais e um lugar gostoso pra trabalhar, não tenho mais desculpa.

. terminar a tipografia que comecei em 2011.

. tomar coragem (e um shot de tequila) e fazer minha primeira tatuagem. o desenho já tá aí, não tenho mais desculpa.

. conhecer Inhotim com a companhia certa.

. comprar menos. 2012 e 2013 foram anos bem consumistas, eu não preciso de tanta coisa, e vou ter bem mais tempo pra fazer o que tenho que fazer se parar de perambular em shoppings e atacados dos presentes.

. comer melhor, deixar de preguiça e cozinhar mais em casa.

. fazer exercícios regularmente, pelo menos 2 vezes na semana. já tenho as roupas de academia, já tenho a bicicleta, moro a 1km do parque da Jaqueira e tem uma escola de dança a menos de 30 passos da minha porta, não tenho mais desculpa.

. andar/pedalar mais pela cidade; sair mais de casa nos fins de semana, ver as novidades; levar a câmera pra passear com mais frequência, parar de tirar fotos mais-ou-menos com o iPhone.

. ler mais livros, ver mais filmes, variar mais as formas de entretenimento. já vejo quase zero televisão no dia a dia, a bronca agora são os seriados não tão bons que continuo acompanhando só pra ver como vão terminar, e no fundo no fundo, sei que é um mega desperdício de tempo.

. fazer uma festa de aniversário tão foda quanto a do ano passado. adoro aniversário, é meu dia preferido do ano (mais do que natal, mais do que reveillon, mais até do que carnaval), e 2013 foi a primeira vez, desde que comecei a morar em Recife, que consegui fazer uma festa em casa em  vez de chamar todo mundo pra um bar. e foi incrível, top 5 momentos mais felizes do ano. quero de novo :D

é isso. vamos ver onde 2014 me leva.

(soundtrack: Paul McCartney – Save Us)

coisas pra fazer

disclaimer: o texto a seguir é muito mais pra mim mesma do que pra qualquer outra pessoa. Pra eu entender melhor o que quero pra 2014, que não é só mais um ano que tá começando, mas o ano em que vou estar mais livre pra pensar e fazer coisas novas. Mas tou escrevendo “em público” porque eu realmente quero que meu plano, que ainda é só um embriãozinho, dê certo, e não tem motivação melhor do que o risco de morrer de vergonha de mim mesma quando eu estiver lendo isso no final do ano, se a coisa não tiver ido pra frente. 

Eu faço coisas com as mãos. Assim, no sentido mais geral e aleatório. Costuro coisas, pinto coisas, monto coisas. Ser designer me deu muitos conhecimentos interessantes e ferramentas novas pra fazer coisas. Mas se teve uma coisa que eu não aprendi no curso, de jeito nenhum, foi como ter um processo. Pra otimizar a feitura das coisas. E isso é completamente culpa minha, porque o que não faltou na graduação foram cadeiras que forçavam a gente a usar metodologias de design pra fazer coisas.

A grande maioria das coisas que eu faço começam a existir em momentos aleatórios, quando dá aquele siricutico de querer o que não existe ao alcance da mão (ou do bolso), como aquela almofada com estampa étnica que vi no Pinterest, aquele banquinho que parece tão simples mas custa 900 dinheiros, aquela cortina que vai levar dois meses pra ficar pronta se eu pedir pra uma costureira. Tipo isso. Aí eu faço as coisas. Sou impulsiva e impaciente. E não tenho um processo. Tou ali, assistindo Friends e cortando um stencil, como as avós costumam fazer paninhos de crochê.

Só que, de uns tempos pra cá, tenho visto gente se dando muito bem na vida, ganhando dinheiro, largando salário certo pra começar um negócio novo fazendo as mesmas coisas que eu faço de brinks. E aí me dá vontade de entrar no barco feliz das pessoas que ganham a vida fazendo coisas. Mas eu preciso de um processo. Preciso levar a coisa a sério. Preciso usar os materiais certos, descobrir e investir nas melhores ferramentas, e me disciplinar pra não deixar o trabalho inacabado, e a coisa nunca ir pra frente.

Isso leva ao meu segundo problema: eu deixo as coisas pela metade.

Um belo dia, depois de ler um livro, minha mãe se auto-diagnosticou com Déficit de Atenção, o popular DDA, a doença psicológica do século. E botou na cabeça (dela e na minha) que eu tenho isso também. Algumas características encaixam: minha mente é muito ativa, mas muito dispersa. Quando não tou trabalhando em algo que é incrivelmente legal e interessante, passo um tempo enorme procrastinando, normalmente pensando em coisas legais que eu gostaria de fazer (o Pinterest é meu maior dark playground ultimamente), e levo dias pra terminar o que daria pra fazer em algumas horas.

As coisas grandes da vida, como o curso de design e o mestrado, eu consigo terminar, porque, apesar do prazo longo e da complexidade, tem uma estrutura imensa me empurrando. Consigo trabalhar e cumprir minhas obrigações, e se pensar em “um dia depois do outro”, minha vida é bem normal. Mas como é comum a tantos criativos assalariados, eu tenho (ou penso que tenho, ou fico o tempo todo pensando em ter) projetos paralelos. Coisas legais e interessantes que eu amo fazer. E são essas as coisas que nunca vão pra frente, porque 1) não paro pra pensar num processo, e 2) não consigo focar.

Eu experimento muito também. Me pergunte sobre qualquer técnica de impressão manual, que eu já experimentei. Meu currículo é cheio de workshops e cursos livres que fiz por curiosidade, por achar aquilo massa e querer fazer também. Caligrafia, aquarela, estamparia artesanal, gravura, colagem, encadernação, já fiz de tudo, e normalmente os resultados não são ruins. Mas depois que aprendo, é bem raro tocar naquilo de novo, e tou sempre tentando coisas diferentes, porque tanta coisa me interessa, mas não consigo ser FODA em nenhuma delas, porque pratico muito pouco.

Daí que em 2014 eu quero mudar esse ciclo de experimentação/abandono que me acompanha desde meados da graduação. Quero usar os conhecimentos que aprendi, quero levar essa parada a sério. Já percebi que sou muito mais feliz num quarto cheio de bagunça, com as mãos sujas de tinta e os braços doendo de tanto lixar um pedaço de madeira do que na frente de um computador o dia todo, com os olhos cansados e a cabeça doendo (isso aconteceu MUITO esse ano). Só que, desde que entrei no mercado de trabalho, passei muito mais tempo na frente de um computador do que num quarto cheio de bagunça, e tou começando a achar isso meio errado. Então, nada mais lógico do que ir mexendo os pauzinhos pra conseguir ser mais feliz.

É isso. Me desejem sorte e clareza, porque não vai ser fácil, mas também não vai ser chato.

(Aí você lê esse texto todo sobre botar a mão na massa, e me pergunta “mas Aline, o mestrado serviu pra quê mesmo?” Bom, serviu um bocado pra pensar de verdade no que eu quero da vida. Minha pesquisa foi sobre ensino de design de tipos, e descobri que, se é isso que eu quero ensinar, preciso antes aprender a fazer direito. Aprender a desenhar tipografia num nível top requer anos de prática e muito tempo na frente do computador noiando em cima de uma curva. E no momento, tou querendo explorar tipografia de outras maneiras. Cortando gravuras, sujando a mão de tinta, brincando com papel. Mas não tou desistindo da tipografia digital, de jeito nenhum, inclusive um dos planos pra 2014 é terminar a fonte que comecei em 2011, que é ao mesmo tempo uma lindeza e um desafio assustador.)

(soundtrack: Cake – Let Me Go)