dendê (ou aprendendo a ser devagar)

Dizem que as pessoas na Bahia têm um ritmo mais devagar, mais tranquilo do que o resto do país. Que lá se trabalha menos e se relaxa mais (talvez por culpa da fraqueza que bate depois de comer uma moqueca, ou da rede na varanda, sempre seduzindo os incautos).

Acho que só fui baiana na hora de nascer. Mas depois que vim pro mundo, essa lerdeza nunca deu certo comigo, nem nos dezoito anos que morei na Bahia (e em cidade pequena, ainda por cima). Minha mãe tá aí pra confirmar, sempre fui agoniada, querendo fazer várias coisas ao mesmo tempo, odiava dormir porque dormir era perda de tempo, lia os livros do colégio antes de começarem as aulas, já querendo saber o que ia acontecer.

Deu certinho quando vim embora pra Recife, cidade mais agoniada em linha reta da américa latina (ou pelo menos do Nordeste). Finalmente, por aqui, as coisas andavam no meu ritmo, todo mundo falava mais rápido, engolindo pedaços das palavras, e as noites eram pra correr com o trabalho do dia, sempre atrasado.

A graduação foi uma correria só, o pouco tempo que passei trabalhando no mercado de moda daqui mais ainda, e os dois anos e pouco de mestrado passaram tão rápido e tão intensamente que fiquei com uma ressaca violenta da dissertação (só voltei a mexer nela um dia desses, pra entregar a versão final na biblioteca e colar grau).

Mas aí resolvi que queria ter meu próprio negócio, fazendo uma coisa que sabia fazer bem: inventar e imprimir estampas. Decidi que ia ser tudo artesanal, feito em casa, desde os produtos até o cartão de visita e as embalagens. Fiz os primeiros carimbos, estampei as primeiras peças, gostei. Mostrei aos amigos, gostaram. Massa. Fiz a identidade visual, linda. Organizei a lojinha online, tá um brinco, só esperando as coisas chegarem. Hora de partir pra a produção.

Minha gente. Abrir um negócio dá trabalho. Um negócio de produtos artesanais então, feitos à mão um a um… e isso sem eu ter todo o tempo do mundo, porque ainda tenho que trabalhar num lugar que pague salário, pra garantir o leite ninho das crianças (hehe). A ideia começou a tomar forma em abril, e só agora, oito meses depois, consegui organizar o primeiro mini-lote de produtos, altamente experimental (não faço ideia do que as pessoas vão gostar, recebi uma parte das peças da costureira hoje, e tem MUITAS dúvidas rondando minha cabeça), que nem ficou pronto ainda.

Uma coisa que nenhuma dessas histórias de ~negócios de sucesso~ conta é quantas vezes a gente tem que quebrar a cara, quantos milhões de testes tem que ser feitos até a coisa ficar boa. E quando você acha que tá massa, e compra os panos e estampa tudo e manda pra a costureira, descobre que não, o produto ainda não ficou do jeito que estava no mundo ideal dentro da cabeça, e vamos ter que fazer tudo de novo, trocar o modelo do ziper, comprar um tecido diferente pra o forro, arrumar a estampa que tá cortando no lugar errado. E isso tudo  d e m o r a. Leva tempo pra acertar, e tem hora que eu nem tenho o que fazer, porque tá tudo na mão de outra pessoa.

Ou seja, estou aprendendo na marra a ser devagar, a aceitar o tempo das coisas, a ser menos agoniada. Não tá fácil, gente. Encontro as pessoas na rua e todo mundo me pergunta quando é que vai poder comprar as coisas da Dendê, e eu tenho certeza que dá pra ver toda a ansiedade nos meus olhos quando respondo “em breve, tamos finalizando a produção”.

Sim, o nome é Dendê, porque dendê é uma delícia, diferente, cheiroso, vibrante, e porque sim, no fundo no fundo ainda sou bem Bahia. E parece que quando dei o nome pra a marca, já estava adivinhando que a coisa toda ia ter que passar meses cozinhando em fogo beeeeem baixo, acertando o sal e a pimenta bem devagarzinho pra sair uma moqueca gostosa no final. Vai sair, amigos. Em breve.

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Uma resposta em “dendê (ou aprendendo a ser devagar)

  1. Mas que coisa tão gostosa essa volta no tempo e no espaço!!!
    Você veio da Bahia, nêga? Foi? Então tá!
    Lerdinha mesmo, só pra nascer, você descreveu bem certinho. E revivi tanta coisa, lendo seu texto… desde você pequenininha, dos “vírus”, das coisas em EVA, de tudo o que já pensamos e criamos juntas… eu que nunca pensei em artesanato me envolvi em muuuuitas coisas, penso que tinha o seu dedinho por trás! Lembrei também de todo o tempo que você passou aí, na Graduação, no Mestrado, em toda a saudade que baianamente eu senti… E gostei, gostei DEMAIS de te sentir baiana, de sentir o dendê correndo nas veias!!!
    Eu desejo todo sucesso do mundo à Dendê, aliás, do mundo só, não, da Bahia!
    E junto com isso tudo de bom que desejo à Dendê, que venha junto a paciência que você precisa!
    Beijoooooos, cheios de amor e saudade!!!

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