coisas pra fazer

disclaimer: o texto a seguir é muito mais pra mim mesma do que pra qualquer outra pessoa. Pra eu entender melhor o que quero pra 2014, que não é só mais um ano que tá começando, mas o ano em que vou estar mais livre pra pensar e fazer coisas novas. Mas tou escrevendo “em público” porque eu realmente quero que meu plano, que ainda é só um embriãozinho, dê certo, e não tem motivação melhor do que o risco de morrer de vergonha de mim mesma quando eu estiver lendo isso no final do ano, se a coisa não tiver ido pra frente. 

Eu faço coisas com as mãos. Assim, no sentido mais geral e aleatório. Costuro coisas, pinto coisas, monto coisas. Ser designer me deu muitos conhecimentos interessantes e ferramentas novas pra fazer coisas. Mas se teve uma coisa que eu não aprendi no curso, de jeito nenhum, foi como ter um processo. Pra otimizar a feitura das coisas. E isso é completamente culpa minha, porque o que não faltou na graduação foram cadeiras que forçavam a gente a usar metodologias de design pra fazer coisas.

A grande maioria das coisas que eu faço começam a existir em momentos aleatórios, quando dá aquele siricutico de querer o que não existe ao alcance da mão (ou do bolso), como aquela almofada com estampa étnica que vi no Pinterest, aquele banquinho que parece tão simples mas custa 900 dinheiros, aquela cortina que vai levar dois meses pra ficar pronta se eu pedir pra uma costureira. Tipo isso. Aí eu faço as coisas. Sou impulsiva e impaciente. E não tenho um processo. Tou ali, assistindo Friends e cortando um stencil, como as avós costumam fazer paninhos de crochê.

Só que, de uns tempos pra cá, tenho visto gente se dando muito bem na vida, ganhando dinheiro, largando salário certo pra começar um negócio novo fazendo as mesmas coisas que eu faço de brinks. E aí me dá vontade de entrar no barco feliz das pessoas que ganham a vida fazendo coisas. Mas eu preciso de um processo. Preciso levar a coisa a sério. Preciso usar os materiais certos, descobrir e investir nas melhores ferramentas, e me disciplinar pra não deixar o trabalho inacabado, e a coisa nunca ir pra frente.

Isso leva ao meu segundo problema: eu deixo as coisas pela metade.

Um belo dia, depois de ler um livro, minha mãe se auto-diagnosticou com Déficit de Atenção, o popular DDA, a doença psicológica do século. E botou na cabeça (dela e na minha) que eu tenho isso também. Algumas características encaixam: minha mente é muito ativa, mas muito dispersa. Quando não tou trabalhando em algo que é incrivelmente legal e interessante, passo um tempo enorme procrastinando, normalmente pensando em coisas legais que eu gostaria de fazer (o Pinterest é meu maior dark playground ultimamente), e levo dias pra terminar o que daria pra fazer em algumas horas.

As coisas grandes da vida, como o curso de design e o mestrado, eu consigo terminar, porque, apesar do prazo longo e da complexidade, tem uma estrutura imensa me empurrando. Consigo trabalhar e cumprir minhas obrigações, e se pensar em “um dia depois do outro”, minha vida é bem normal. Mas como é comum a tantos criativos assalariados, eu tenho (ou penso que tenho, ou fico o tempo todo pensando em ter) projetos paralelos. Coisas legais e interessantes que eu amo fazer. E são essas as coisas que nunca vão pra frente, porque 1) não paro pra pensar num processo, e 2) não consigo focar.

Eu experimento muito também. Me pergunte sobre qualquer técnica de impressão manual, que eu já experimentei. Meu currículo é cheio de workshops e cursos livres que fiz por curiosidade, por achar aquilo massa e querer fazer também. Caligrafia, aquarela, estamparia artesanal, gravura, colagem, encadernação, já fiz de tudo, e normalmente os resultados não são ruins. Mas depois que aprendo, é bem raro tocar naquilo de novo, e tou sempre tentando coisas diferentes, porque tanta coisa me interessa, mas não consigo ser FODA em nenhuma delas, porque pratico muito pouco.

Daí que em 2014 eu quero mudar esse ciclo de experimentação/abandono que me acompanha desde meados da graduação. Quero usar os conhecimentos que aprendi, quero levar essa parada a sério. Já percebi que sou muito mais feliz num quarto cheio de bagunça, com as mãos sujas de tinta e os braços doendo de tanto lixar um pedaço de madeira do que na frente de um computador o dia todo, com os olhos cansados e a cabeça doendo (isso aconteceu MUITO esse ano). Só que, desde que entrei no mercado de trabalho, passei muito mais tempo na frente de um computador do que num quarto cheio de bagunça, e tou começando a achar isso meio errado. Então, nada mais lógico do que ir mexendo os pauzinhos pra conseguir ser mais feliz.

É isso. Me desejem sorte e clareza, porque não vai ser fácil, mas também não vai ser chato.

(Aí você lê esse texto todo sobre botar a mão na massa, e me pergunta “mas Aline, o mestrado serviu pra quê mesmo?” Bom, serviu um bocado pra pensar de verdade no que eu quero da vida. Minha pesquisa foi sobre ensino de design de tipos, e descobri que, se é isso que eu quero ensinar, preciso antes aprender a fazer direito. Aprender a desenhar tipografia num nível top requer anos de prática e muito tempo na frente do computador noiando em cima de uma curva. E no momento, tou querendo explorar tipografia de outras maneiras. Cortando gravuras, sujando a mão de tinta, brincando com papel. Mas não tou desistindo da tipografia digital, de jeito nenhum, inclusive um dos planos pra 2014 é terminar a fonte que comecei em 2011, que é ao mesmo tempo uma lindeza e um desafio assustador.)

(soundtrack: Cake – Let Me Go)

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3 respostas em “coisas pra fazer

  1. Eu te entendo. Ah, como eu te entendo…
    E se posso fazer alguma coisa, essa coisa é torcer por você e apoiar sua entrada no barco feliz das pessoas que ganham a vida fazendo coisas. Navegue e ganhe o mundo!!!
    Ah, só lembrando, você já ganhou muito dinheiro com Bisquit e EVA, lembra???
    Amo você, minha designer predileta.

  2. Pingback: para o ano | ela também diz Ni!

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