os meus motivos

Eu nunca tive carro. Nunca tive dinheiro pra manter um carro. Não sei nem dirigir. Logo que vim morar em Recife, andava um bocado de ônibus. Precisava chegar na universidade, depois chegar no trabalho, e olha, minhas memórias de busão nunca foram boas. No começo era tudo novo e eu ainda tinha coragem de entrar num ônibus, abstrair o fato de que eu ia passar pelo menos uma hora apertada lá dentro, e encarar o desconforto só pra descobrir lugares diferentes.
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Mas uns 2 anos atrás, quando eu tinha que ir todo dia pra o trabalho em Casa Forte, morando na Várzea, a coisa tava cada vez pior, a ponto de eu ficar no trabalho até as 8 da noite, só pra não pegar o Dois Irmãos – Rui Barbosa tão lotado. E a passagem subindo. E o trânsito ficando pior. E a cidade sufocando a gente cada vez mais. E eu só via o cansaço na expressão de todo mundo que tinha que se espremer com mais 100 pessoas dentro de um ônibus onde só cabem 50.
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Hoje quase não pego ônibus. Moro a 10 minutos da UFPE, e preciso sair pouco de casa. Meu namorado é um dos jovens de classe média privilegiados por ter um carro, e sim, eu me aproveito desse privilégio. E mesmo assim a gente sofre. Sofrimento que nem se compara com a galera que pega 2 ônibus e um metrô todo dia pra chegar no trabalho, mas ainda assim, a gente sente a cidade tirando um pouquinho da nossa vida todo dia. Tem dias que a gente só chega em casa e se estica na cama, sem ânimo pra fazer mais nada. Desistimos do barzinho, do cinema, do programa com os amigos, só de pensar em ter que sair de casa e enfrentar as ruas paradas, principalmente em dia de chuva.
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Virou pré-requisito pra se ter um mínimo de qualidade de vida nessa cidade a possibilidade de trabalhar perto de casa. E aí a gente vai se ilhando cada um no seu bairros, e a cidade vai ficando cada vez menor. Faz uns 4 meses que eu não piso em Boa Viagem. Da última vez, estava em cima de uma bicicleta, num dia de domingo — e nos domingos Recife parece outra cidade. Viva, cheia de gente, e não de carros na rua.
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Hoje eu vou pra a rua junto com mais um mundo de gente. As bandeiras são muitas, e eu sei que vou encontrar gente que quer exatamente o contrário das coisas que eu espero conseguir, ou que não sabe o que quer. Vou tentar não ficar com raiva, e nem desanimar diante do esvaziamento das reivindicações que estou vendo por aí. Cada um tem seus motivos pra levantar do sofá, eu tenho os meus:
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Eu vou pra a rua pedir mais ônibus, e que eles não custem tão caro. Existe passe por tempo (semanal, mensal) em várias cidades, e acho que seria perfeitamente viável implantar uma idéia dessas por aqui. Pra que o pessoal não tenha que pegar 3, 4 ônibus e esperar num terminal de integração lotado pra chegar onde precisa, porque se pegar 2 sai mais caro. Eu vou pra a rua pedir um sistema metroviário decente, que ajude a desafogar os pontos críticos da cidade. Eu vou pra a rua pedir menos viadutos, porque viadutos (desses que passam por cima da Agamenon, não têm calçadas e só servem pra passar carro) são gambiarras e não soluções, fora que são feios. Eu vou pra a rua pedir um plano de mobilidade que estimule as pessoas a andar menos de carro, porque é um uso muito ineficiente, além de segregatório, pra o espaço da rua. Eu vou pra a rua tentar ganhar minha cidade de volta.
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7 respostas em “os meus motivos

  1. Oh, God!!! Que orgulho de ter parido e educado você!!!
    Vá, minha filha! Lute pelos seus motivos! Eu, daqui, estou lutando pelos meus. E, na mesma hora, estaremos juntas, de coração, por uma cidade melhor, por um Brasil melhor, por um mundo melhor pros meus netos (mesmo que eles ainda sejam imaginativos)!!!!
    Amo você cada vez mais!
    Mom

  2. Coisa linda de se ler/viver!!!!!!
    Certeza de frutos de excelência, plantados e regados com amor e certezas!!!!!
    Abraços, Line!!!!

  3. Te conheci há muito tempo…e já reconhecia a tua fibra: cérebro,nobreza de coração e valentia.Não decepcionas a quem confia em ti! Em frente!Bj.

  4. Tá certa vc…. vamos às ruas para exigir o que pagamos, na verdade. No caso, vcs estão pagando (pq não moro mais aí, mas paguei por mto tempo). São tantas taxas, são tantos impostos que não dão conta de tanta corrupção. E devemos lutar sim, mesmo que pareça um esforço mínimo, pq acredito que com essa força, aos poucos vamos reconquistando nossos direitos.

    Kisu!

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