confissões de uma designer em crise.

A pergunta da vez na turma de Design 2006.1 é “em quanto tempo você se forma?”. Eu já tinha pensado um bocado no assunto durante as férias, e resolvi, super tranquila e feliz da vida, que não estava com pressa. Que era melhor fazer as coisas direito do que fazer rápido. Que, basicamente, eu ia terminar todas as cadeiras até o final do ano, e depois fazer o PG, na maior calma, e com a cabeça um pouqunho mais madura, até pra resolver de verdade o que eu quero. Tou naquele momento de pensar, pensar, pensar, torrar os miolos e não fazer a mínima idéia do que é que eu vou fazer da vida quando sair da federal. Já considerei até prolongar por mais 2 anos a convivência deliciosa com o CAC e tudo que tem nele, fazendo mestrado em algo-que-não-sei-o-que-é-ainda. Mas sinceramente, não quero ser professora. Aliás, neste exato momento, eu só tenho certeza do que eu não quero fazer.

Não quero ficar correndo atrás de um monte de moleques de 20 anos, quando eu tiver quase 30, cobrando exercícios, seminários e projetos, num curso onde quase ninguém dá a mínima pra prazos e requisitos. Também não quero viver de freelance. É incerteza demais até pra mim, que sempre odiei rotina. Não consigo mais viver com a perspectiva de ganhar uma grana preta num mês e nada do outro. Não quero trabalhar na frente do computador o dia todo, não quero chegar ao ponto de sonhar com as paletas do Photoshop e as grades do inDesign, só porque fiz disso a minha vida em horário comercial. Não quero trabalhar de casa, acho que não funciona pra mim. Preciso de disciplina. Preciso também de um contato constante do lápis como papel, é aí que as idéias se traduzem. Não quero morrer de calor numa oficina fazendo prototipagem também. Sim, eu achava isso o máximo no terceiro período, mas sinceramente, não é vida. Não quero trabalhar com web. Sim, é o futuro, eu sei. Mas tá cada vez mais difícil inovar, com tanta coisa se sobrepondo na rede.

Preciso de uma idéia genial. Ultimamente tudo que tenho feito é me encher de referências, repertório visual, um monte de conhecimento solto que sim, pode me servir de alguma coisa, mas é tão remoto, sabe. Tão… incerto.

No início do curso, eu queria trabalhar com produto. Cheguei e descobri um mercado altamente fechado, e o que aprendi a fazer nas disciplinas de produto não foi design. Ou foi pouquíssimo. Depois, paguei umas cadeiras de moda. Me fascinei com o tanto de informação que uma peça de roupa pode carregar, e criei coisas. Tudo muito abstrato e não-aplicável à vida real. Parece que a própria faculdade não é aplicável à vida real, e isso é triste. Aí comeceia ler blogs de moda, e fui descobrindo que tem uma galera legal, mas que o mundinho fashionista é muito, muito cruel. E eu fico sentindo que não tenho a garra pra enfrentar um mercado onde a cada segundo alguém faz uma coisa nova, que torna a grande descoberta da semana passada completamente obsoleta (by the way, carrot pants e ombros marcados me cansam. Acho ridículo. Prontofalei).

Tudo que a gente ouve dentro do curso é “se garanta no que você faz, que o mercado sabe reconhecer quem é bom. Diploma não adianta muita coisa na hora de ser contratado, o que conta é seu portfolio e sua vontade de trabalhar”. Isso me dá medo. Descobri que a coisa toda pra se dar bem na vida não é educação, não é estudo. É pura prática. E pra ganhar prática, salvo raras exceções, você precisa quebrar a cara às vezes. Precisa trabalhar de graça pra mostrar que sabe, que seu trabalho é bom. E aí eu fico assustada. Porque, em 3 anos de curso, indo pro quarto, ainda não fiz nada assim absurdamente bom, que olhando pra meus trabalhos, eu me contrataria, sabe. E foi tudo sempre muito acadêmico, muito guiado por uma restrição do professor, não do mercado.

Agora tou me interessando por tipografia, uma reviravolta totalmente inexperada em tudo que eu achava que queria. Dá um nó na cabeça, eu comecei o curso querendo criar coisas palpáveis, produtos, ter fama internacional, participar do salão do móvel de Milão, e agora tou fascinada por letras, que são simples e cotidianas, e de certa forma, abstratas. Mas me apaixonei pela história do desenho das letras, uma coisa que ninguém imagina que seja tão complexa, e ao mesmo tempo, tão natural, tão lógica. Tou pagando cadeiras que, segundo quem pagou antes de mim, são “pra abrir a cabeça”. Cani um dia desses me disse que é perda de tempo ficar se limitando, dizendo “eu faço design de produto” ou “eu faço design gráfico”, ou “eu faço moda”. Que o que importa é o processo, que no fim das contas é igual pra todo tipo de projeto.

E aí eu resolvi abrir as janelas. Tá tudo muito confuso ainda, eu não sei pra que lado olhar. Uma coisa é fato, preciso de uma idéia genial.

(ok, vou confessar, bateu uma frustraçãozinha quando eu vi gente da minha turma matriculada em PG1. Veio como se fosse um “e aí, você não vai nem tentar?” de lá do fundo, da parte de mim que é a primeira da turma sempre. Fato é que só uns 20% da turma vão conseguir se formar no tempo certo, então tou tentando não ficar na neura com mais essa ainda.)

(soundtrack: da trilha de Weeds, não sei quem canta, mas a música original é de Malvina Reynolds [who?] – Little Boxes [extremamente apropriada pra fim-de-faculdade-começo-de-real-life])

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6 respostas em “confissões de uma designer em crise.

  1. Esta é uma crise que você vai ter que encarar sozinha.
    Aliás, como todas as grandes crises da vida.
    Você só precisa saber que tem um colo e um ombro disponíveis, a hora que precisar. ;)

  2. Don’t panic, sei que sentimento é esse de ver as pessoas se formarem e você não, ele passa, mas é sinal de que você já tá começando a querer se formar também.

    Por outro lado, não tenha pressa, vai ter uma hora que você vai bater a perna e pensar com determinação “AGORA EU ME FORMO” e só nessa hora você vai encarar pg1, pg2 e afins, eu deveria ter esperado isso para pagar pg1, não esperei e agora só tenho pg2 para fazer a minha mono, haha =D

    Não se limite, experimente e se permita, eu sempre digo isso 8D mas é verdade. No final das contas, se você vai trabalhar com moda ou produto ou gráfico nem vai ser você quem vai decidi de verdade, termina que as coisas vão acontecendo e o mercado te escolhe.

    Algo fantástico pode acontecer nos próximos meses, e você pode fazer aquele trabalho divisor de águas, aquele que ao ver você se contrataria.

    Conhecendo você sei que se cobra muito, muito perfeccionista, não subestime seus trabalhinhos só porque são academicos, você sempre caprichou em tudo e isso reflete em cada o que vi você fazendo na faculdade.

    Você é boa, deixo até você entrar em crise, mas não desanime nunca =*

    [comentário post, mas nem ligo haha]

  3. Line,
    tenho passeado aqui pelo seu blog. Ando escrevendo também, num blog “praticamente-ninguém-viu”, aí vira e mexe passo por aqui.

    engraçado como lembrei muito de mim nesse seu post. Há mais ou menos dois anos, na reta final do curso eu me perguntava o tempo todo que [[palavrão bem feio aqui]] eu vou fazer da vida quando sair daqui???

    e hoje, já no mercado, fazendo força pra não ficar igual; pra não esquecer de sonhar e fazer coisas bacanas e diferentes, eu vejo que tudo meio que acontece numa ordem que a gente não entende bem, mas acontece.

    mergulha fundo na reflexão, mas tome uns vinhos e relaxe de vez em quando. Tudo se ajeita.

  4. lendo isso aqui, veio a certeza de que tás do mesmo jeito que muuita gente que eu conheço. e tás melhor que eu. então falo pra 50% dos universitários que eu conheço quando desejo que tudo, realmente, se ajeite :) mas algum dia, com certeza se ajeitará.

  5. Eu estava começando a ficar assim, a diferença é que o curso de Design de Interiores é limitadíssimo mesmo. Então resolvi optar por aquitetura, agora tenho uns 4 anos de agonia universitária pela frente, pra depois chegar exatamente no ponto em que estás.

    Tipografia deve ser uma coisa linda. Se um dia tivermos tempo de nos falar, me apresenta um pouco?!

    Beijinho. ;*

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