o ateliê, ou crise de nostalgia recente

Ontem me peguei debruçada no murinho do 2º andar do CAC, olhando de cima o ateliê. Seis meses atrás era eu quem estava ali, lixando, polindo, ficando nervosa. E fazendo amigos.

Sim, o ateliê é o lugar perfeito pra fazer amigos. Enquanto as mãos se ocupam de seja lá qual for a peça que você tem que entregar terça que vem, a mente fica livre pra viajar por todos os lugares possíveis e imagináveis, e pra conversar com quem esta do lado na mesa, um pouquinho mais ou um pouquinho menos cheio das mesmas coisas pra fazer do que você. E é assim, contando o número de noites sem dormir e o tamanho do cansaço, e rindo da desgraça própria e da alheia que a gente vai se conhecendo.

Nem precisa dizer que morro de saudade. E nos últimos períodos que passei naquela bagunça de tintas, resinas, gesso e telas de serigrafia, já conseguia gostar do processo antes de ele ter acabado e eu estar finalmente de férias. Tão diferente de agora, dessa falta de ligação com tudo, desse jeito bagunçado (não no bom sentido) como os dias passam na federal.

Sim, minhas costas doíam. Meus dedos perdiam as impressões digitais. Minhas roupas ficavam imprestáveis. O nariz e a garganta viviam irritados com o cheiro de tinta. Eu não sabia o que era um almoço decente, porque não dava pra largar todas as coisas urgentes e sentar numa mesa e comer de garfo e faca. E tinha dias que eu não conseguia organizar uma frase completa e falar, de tão esgotado que meu cérebro ficava. Mas o cansaço e a falta de digitais e de sono, e as roupas manchadas, e o nariz irritado, e até alguma cicatriz de estilete eram sinal de que eu tinha feito muita coisa, e normalmente valia a pena. Ver a peça pronta, sem nenhum arranhão e nenhuma falhinha (os arranhões e as falhas e os machucados ficavam todos pra mim) era a coisa mais incrível do mundo. Acho que não sou nem um pouco feita pra esse mundo novo de coisas não-físicas que se forma cada vez mais rápido. Preciso pegar, sentir, ver a coisa se mexendo nas minhas mãos.

Hoje eu olho e meio que não sei como eu conseguia. E hoje a grande maioria das conversas de corredor que ainda dá pra ter com os colegas é lembrando das loucuras que a gente fazia no ateliê, e de como fomos, aos pouquinhos, virando amigos.

Ai ai. Saudade de quando eu funcionava em 220.

(soundtrack: Nouvelle Vague – Killing Moon)

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