meu melhor amigo é o meu amor

Tive uma noite de insônia, como há tempos nâo acontecia. Daquelas de não conseguir fazer nada produtivo, só zapear na internet (ou melhor, no viciante Google Reader). Daí botei pra tocar o cd dos Tribalistas, herança que ficou de Curupa. Claro, eu já conhecia umas músicas soltas, e já tinha escutado algum tempo antes, mas deu saudade das músicas fofinhas e das letras inteligentes, e de umas experimentações meio doidas que Arnaldo Antunes gosta de fazer.

Aí tocou Velha Infância. Que era tema de novela, da época em que eu assistia alguma novela gostando mesmo. Mulheres Apaixonadas, pra ser mais específica. Isso lá nos meus 14 anos. Mas não foi a novela que marcou a música em mim. No ensino médio, tive a melhor professora de literatura EVER. Ângela, meio gordinha (tá, os meninos diriam que ela era muito gostosa, isso sim), menos de 1,60m, um enorme amor pela literatura, e pela vida, e pelo amor. No primeiro ano, pelo que me lembro (e alguém me corrija se eu estiver errada), ela ainda era solteira, mas meio enrolada com um cara. Que de vez em quando ligava na hora da aula, e deixava seus olhos brilhando. Ela trabalhava demais, mas ainda conseguia se arrumar e ser estilosa. Ela era feliz, dava pra ver.

A gente estava estudando, como acontece em todo primeiro ano, os estilos literários de cada época. O da vez era o Trovadorismo, hit da Idade Média. E os módulos de literatura da gente tinham análises chatíssimas de métrica, estilo e semântica das tais “cantigas de amigo”, e eu, apesar de adorar literatura, fosse ela qual fosse, não era muito fã de poesia, sempre preferi a prosa mil vezes. E acharia tudo aquilo um saco, se não fosse Ângela. Pois bem, um belo dia ela trouxe o clássico microsystem do colégio e um cd, que não sei se era dos Tribalistas ou da novela, mas que tinha Velha Infância. E foi genial quando ela mostrou que aquilo ali era uma cantiga de amigo musicada.

Futucando fundo na memória, porque tô com preguiça de ir no google ou no wiki, as cantigas de amigo eram escritas pelos trovadores pra suas amadas, numa época em que não se permitia falar abertamente de amor, porque, segundo a Igreja, amor era pecado. Ou algo assim. Mas eles diziam com uma ternura imensa coisas como “eu gosto de você, e gosto de ficar com você, meu riso é tão feliz contigo”, e as moças entendiam, e o mundo continuava girando apesar da Santa Inquisição e da Peste Negra.

Eu achei aquilo tudo tão doce que passei até a gostar um tiquinho de poesia (tudo ficou mais fácil depois que chegaram Manuel Bandeira e Drummond, é claro) e comecei a escrever coisas de amor pra aquele que era meu amor na época, embora não merecesse um trisco do que eu sentia. E fiz disso um hábito, escrever coisas pra garotos que cheguei a amar – e algumas viraram cartas, ou e-mails, ou posts, mas a maioria ficou guardada na gaveta -, até o dia em que um deles tornou tudo infinitamente mais fácil, sem me dar tempo sequer pra pensar em escrever alguma coisa.

Mas ontem me deu saudade. De Ângela, do primeiro ano, de mim mesma, como eu era, de como tudo era intenso e novo. De sentir de novo aquele tipo de amor que só acontece quando se tem 14 anos. Que inunda tudo, que está em todo lugar, que a única coisa que dá pra fazer com ele é sentir, sentir, sentir e esperar que passe. Sim, porque amor de 14 anos é sempre torto e não-correspondido. Mas ainda assim é amor.

E lá vou eu divagando de novo. É, acontece quando você só dorme uma hora e passa o resto do tempo lendo blogs de mulherzinha.

(soundtrack: Tribalistas – Velha Infância)

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10 respostas em “meu melhor amigo é o meu amor

  1. Estou tão orgulhosa de mim mesma… Esse é o 3o blog que comento hoje onde sou a PRIMEIRA.

    Eu também sinto saudade do 1o ano, de mim naquela época, do “tipo” de frio na barriga que as paqueras daquele tempo causavam. Agora que eu “cresci”, parece tudo tão distante. Algumas vezes acho que é melhor agora, outras que era melhor antes. E logo eu me lembro do monte de gente que fica perdido no passado e esquece que o que está acontecendo agora é passado. E se não viver AGORA, não terá, no futuro, passado pra recordar… Então, é isso: pra mim hoje sempre vai ser melhor que ontem e pior que amanhã;-)

    É… acho que estou na veia divagadora. Pausa.

    Beijo em tu

  2. Eu particularmente não sinto saudade nenhuma do 1º ano. Foi uma no morto para mim.
    Acho que hoje estou um pouco fria e no modo “pra frente”.
    Passei umas semanas sentimental, escrevi até um textinho declarando saudade de uma árvore que tinha lá perto de casa =S posso até te mostrar, mas nem reconheço mais que fui eu que escrevi. Vá ver eram os hormonios.
    Saudades de tu, precisamos fofocar >_<
    =*

  3. Caio Fernando Abreu foi um cara que morreu em 96 e tem altos livros de contos e romances, como morangos mofados, o ovo apunhalado, dragões não conhecem o paraíso, limite branco e triângulo das águas. ele fala muito de solidão, amor e dor (resumindo ridiculamente :P) e escreveu umas coisas muito muito lindas :) alguns dizem que é ‘larice de calças’, acho que é diferente, mas é bem introspectivo. legal que só.

    :*

  4. Nostalgia norturna hein?!
    E isso é sempre bom!
    O que tenho tido em noites insones sao só preocupaçoes e prazos hahahaa mas acontece….
    É tive que vir da um pulinho aqui tendo em vista que nunca mais lhe vi naquele cenario cult do gramado do CAC :P

    Bjos ;)

  5. Que inunda tudo, que está em todo lugar, que a única coisa que dá pra fazer com ele é sentir, sentir, sentir e esperar que passe… ou n… =D

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