no ônibus

Dizem que andar de ônibus é um inferno. Que ninguém merece os molequinhos pidões “eu pudia tá matano, eu pudia tá robano”, ou a vibe Kolene do lugar, ou a simples visão de gente feia. Eu confesso que penso assim em boa parte do tempo. Mas um dia desses, no ônibus, aconteceu uma coisa, dessas bobas que deixam a gente feliz o resto do dia.

Estava eu indo pro centro da cidade, sentadinha na última cadeira, na janela, escutando o melhor de The Cardigans e pensando em nada específico. Uma situação bem favorável e atípica no cotidiano dos ônibus, obviamente. Fazia sol, mas não estava absurdamente quente (eu estava na janela, duh!). Aí, pra me tirar do transe e atrapalhar meu good day sunshine, alguém joga uns 5 panfletos de propaganda pela janela em cima de mim.

(eu tenho ódio mortal por essa prática de distribuir panfletos. Se fosse dinheiro jogado no lixo ainda era bom. Mas é dinheiro jogado no meio da rua, que deixa a cidade feia, suja e melequenta em dias de chuva. Mas voltando à história do ônibus)

Estava eu lá, maldizendo o dia em que inventaram o panfleto, e pensando “o que é que eu faço com todo esse lixo”, quando uma menininha de uns 2 anos, que estava snetada do lado com a avó, estende a mão e rouba um dos panfletos do meu colo. “Perfeito”, pensei eu, e quando estava já pra concluir a idéia de dar todos os panfletos pra a menininha, que além de tudo ia ficar feliz e entretida brincando com eles enquanto a avó resolvia coisas de vó na cidade, lembrei de quando eu guardava panfletos de rua pra fazer coraçõeszinhos de origami. Faz uns 2 anos isso, eu aprendi a fazer os tais coraçõezinhos e morria de pena de jogar os panfletos fora. Tinha uma caixa cheia, que hoje não faço a menor idéia de onde esteja. A maniazinha passou, eu fiquei mais ranzinza, e hoje simplesmente jogo no lixo mais próximo, ou dentro da bolsa (que dependendo do nível de bagunça, pode ser comparada tranquilamente a um lixo mais próximo).

Enfim, eu olhei a menininha, olhei aquele monte de papel, e comecei, num rompante de ternura, a fazer um coraçãozinho de origami. A coisa mais fofa do mundo era a expressão de surpresa da menininha, perplexa de ver como eu tinha feito aquilo. Dei o coraçãozinho pra ela, a avó disse “agradece, Fulaninha!”, ela riu, mas não disse nada, como é de praxe pra crianças que querem envergonhar mães/avós/tias/madrinhas, e eu senti aquela alegria boba de ter feito feliz alguém completamente desconhecido.

Sobraram uns 3 panfletos inúteis na minha bolsa ainda, porque chegou minha vez de descer do ônibus. Mas àquela altura, eu não dava a mínima, e seria capaz até de continuar fazendo origamis se já não estivesse tão perto de tudo que tinha que resolver na rua feito gente grande.

(soundtrack: Arnaldo Antunes – Para Lá)

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8 respostas em “no ônibus

  1. qnd aprendi a fazer as benditas estrelinhas de origami, acho que todo mundo ganhou uma. onde eu chegava, era só ter um papelzinho sobrando que lá vinha uma constelação.
    (barzinho é o lugar perfeito, sempre tem mtos papelzinhos dando sopa e dá pra fazer e praticar as dobraduras. problema é que ngm entende que pra fazer algum sentido eu tenho que juntar 30 – pra fazer o kusudama. e ngm entende que estou apenas praticando)

    tão bonitnha fazendo graça pra criancinhas na rua.
    sua bolsa fica pior que minha?

    pelo que vc pode perceber, ainda estou sem falar. assim, não totalmente pq eu já teria surtado. só não falo direito e tem que ser tampando a boca, enfim, ngm entende. só me resta ficar falando muito aqui – e em todo lugar wue possa escrever. até estou andando com um bilhetinho. “não posso falar. fiz uma cirurgia” e parece que todo cristão tem a mesma idéia brilhante de perguntar “cirurgia de quê?” ¬¬

    é, tenho que parar de falar, né? isso não é um e-mail-gigante.

  2. aah, eu aprendi a fazer esses corações há uns 5 anos e vez ou outra um papel inútil que chega em minhas mãos vira origami, sendo em seguida presenteado a alguém. como esse alguém não costuma ser uma criança de dois anos, não provoca tanta alegria (normalmente vai pro lixo logo depois mesmo), mas ainda assim… :) haha

  3. Pois que meigo, dona moça. E eu, ein?! Que tenho uma estrelinha de origami que você fez quando veio aqui, bem pequenininha. Um dia minha mãe amassou sem querer… E agora eu tenho uma estrelinha de origami que você fez quando veio aqui, bem pequenininha, e amassada. :}

    Saudade, tá?! ;*********~

  4. Pura ternura esse post, Line, leve, gostoso de sentir. Não sei fazer origamis, corações, estrelas, tartarugas, sapos. Na real, nem barco eu nunca soube fazer. Se puder, um dia te peço um via correio.

    ;)

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