é doce morrer no mar

Confesso que sempre confundi Caymmi com Jorge Amado quando era criança. Os dois eram tão parecidos, gordinhos, camisa florida, cabeça branca, bigode, cara de preguiça, tão baianos… Mas Caymmi, ao contrário de Jorge, nunca me fez odiar nenhuma de suas músicas só porque eram obrigadas. Caymmi foi parte de uma época deliciosa da minha vida, quando tudo era simples feito um acarajé com coca-cola. Minha mãe sempre gostou dele. Ela adora o mar, Caymmi adora o mar, aí já viu.

Ele era repertório do coral. Ele é, pra mim, do tempo que ainda se compravam cds. Ele era a canção de ninar, que de vez em quando meu pai e minha mãe cantavam juntos pra mim, naquele meu quarto que tinha coisinhas de porcelana penduradas na parede. Ele era a bronca de minha mãe quando eu usava muita maquiagem sem ter idade pra isso. Ele foi a receita de vatapá que eu decorei depois de escutar umas três vezes. Ele já esteve nas minhas mãos, no piano e na flauta, ainda que por pouco tempo. Ele é a música que presta na Bahia. Uns 2 anos atrás, a Clave de Sol fez, no dia da Música, um espetáculo inteiro só com as músicas dele. Foi emocionante, Caymmi é um dos poucos que ainda consegue me emocionar com sua música, apesar de eu preferir outros intérpretes à voz dele de verdade, talvez por tanto ouvir corais, e arranjos, e versões diferentes.

Dizem que Caymmi levou 8 anos pra terminar uma música (e não, ele não era uma pessoa atarefada). E que o povo na Bahia tem 3 velocidades: devagar, mais devagar e Caymmi. Podem dizer, é verdade mesmo. Mas se ele não fizesse música nessa velocidade, não faria at all. E sim, agora eu estou com saudade da Bahia. Daquela Bahia gostosa, que mistura a praia do Sul, vazia de gente e cheia de sol, a casa de meus avós em Olivença, com a rede na varanda, o Solar do Unhão, de Salvador, a vista do Rio Vermelho (que é onde fica a casa de Jorge Amado, não de Caymmi) e o meu pôr-do-sol preferido no mundo todo. Ah, se eu escutasse o que mamãe dizia.

e assim adormece esse homem, que nunca precisa dormir pra sonhar [João Valentão]

(soundtrack: Dorival Caymmi – Marina)

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