fantasma do natal passado

Ainda lembro daquele cheiro, uma mistura de plástico e chocolate, que enchia a sala de estar no final do ano lá em casa. Minha mãe tinha uma escola de música e uma árvore de natal de 3 metros, que era montada a alguma altura de novembro. E eu ajudava a montar. Lembro que uma vez foram só Sonhos de Valsa, que ninguém podia comer até o dia do encerramento das aulas, mas a gente sempre dava um jeito de roubar algum. Tinha também o pisca-pisca colorido que tocava música e tinha 70952351 programações diferentes, e uns enfeitinhos de madeira, com os quais eu adorava brincar porque pareciam brinquedinhos antigos, e foram comprados de tia Eunice. Eram lindos, pintados à mão, e todos tinham alguma coisa dourada. Nem sei o fim que levaram. se a gente ainda morasse naquela casa, com certeza estariam no depósito (uma espécie de porão onde se guardava toda espécie de quinquilharias, que ficava no meio da escada, entre a garagem e a casa propriamente dita, e merece um post só pra ele), junto com a árvore de natal de madeira, que foi pendurada na parede por um ano ou dois, mas nunca fez tanto sucesso como a de 3 metros.

Eu me divertia montando a árvore de milhões de partes, todas muito específicas. Alguém ficava com o trabalho chato de separá-las, enquanto eu, um toco de gente de 8 anos de idade, me esticava em cima de um daqueles banquinhos redondos pra encaixar no lugar. Banquinhos, aliás, que não vou esquecer nunca. Eram da escola de música e foram feitos por encomenda, em duas alturas. Eu gostava de sentar nos mais altos, que nas aulas de teoria musical eram usados pra apoiar o caderno de música e escrever. Me sentia, sei lá, grande, eu que era sempre menor que todo mundo, mais nova que todo mundo.

Tenho saudade da escola de música. Da infância escutando as lições de Suzuki e as pecinhas de Bach no piano (deve ser por causa disso que não vivo sem música hoje), das tardes que seriam extremamente tediosas sem as outras crianças que tinham aula lá, primeiras amizades que fiz – e pelo menos uma conseguiu durar a vida toda. Dos recitais no teatro, que deixavam minha mãe uma pilha de nervos, mas saíam perfeitos no fim das contas. De ficar na recepção com Claudiane, desenhando e sujando de lápis de cor a mesinha de fórmica, das festinhas de aniversário que minha mãe organizava no terraço, da casa cheia.

O último natal daquela árvore foi o de 97, se não me engano. Minha mãe não estava lá pra montar, e a gente resolveu fazer uma surpresa pra ela, que ia chegar em casa e ver a árvore pronta. Eu queria que dessa vez tivesse neve, mas acho que não deu certo. Ela tinha ido a Salvador, fazer uma cirurgia complicada na coluna, pra consertar um braço que doía muito. Nunca mais deu aulas de piano depois disso, e não lembro bem se a escola de música fechou antes ou depois dessa viagem. Só lembro que a árvore foi parar num dos quartinhos de bagunça da casa de minha vó antes de ser doada e fazer outra pessoa feliz com aquele cheiro de plástico e chocolate. E o Natal ficou meio estranho lá em casa nos anos seguintes, como se faltasse alguma coisa. E faltava.

Parece que é modinha hoje em dia as pessoas dizerem que odeiam o Natal. Eu não odeio. Gosto um bocado, na verdade. É a melhor época do ano pra comida, e me traz boas lembranças. Primeiro da escola de música, e depois, quando não tinha mais escola, das férias na casa de minha vó com um monte de primos, na época em que não importava muito a idade da gente, e ninguém era apaixonado por ninguém, e todo mundo brincava com todo mundo, e todo mundo ia pra a piscina. Sei lá, deve ser normal ficar com o coração apertado lembrando dessas coisas. E tudo porque cheguei em casa hoje e o prédio estava todo enfeitado com pisca-piscas, e em um dos apartamentos estava tocando uma daquelas musiquinhas das 70952351 programações.

Mas nunca mais senti aquele cheiro.
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árvore de Natal do CAC – ano passado

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(soundtrack: The Cure – Boys Dont Cry)

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