C8H10N4O2

– Olá, meu nome é Aline, sou viciada em cafeína e estou limpa há 5 minutos.
[todo mundo]
– Olá, Aline.
– Tudo começou quando fui fazer um exame de vista por causa da miopia. Eu tinha 12 anos, ia precisar usar óculos e estava achando um saco dilatar a pupila e esperar uma eternidade até me mandarem esperar em outra sala, e outra, e outra, e outra… foi aí que eu vi: a garrafa térmica de café, numa mesinha. É verdade mesmo isso que vocês dizem, de evitar o primeiro gole. Não me lembro de ter tomado café antes. Minha mãe conta que quando eu era bem criancinha, pedi café a ela uma vez, o que ela estava tomando. Ela (como toda boa mãe que não quer os filhos hiperativos e com gastrite), fez pra mim uma xícara de Nescafé forte, sem açúcar, e muito quente. Pra eu ficar traumatizada e odiar café pra o resto da vida. Sei lá, se algum psicanalista se atrever a adivinhar o que tem dentro da minha cabeça, provavelmente vai dizer que meu gosto absurdo por café é uma forma inconsciente de rebeldia, que eu fui reprimida na infância, que eu não saí da fase oral e que é tudo culpa da minha mãe.
– Você já foi a um analista?
– Tive umas sessões com uma psicóloga uma vez, por causa do meu comportamento anti-social na escola, mas só lembro que odiava os 50 minutos, e adorava brincar com os cachorrinhos filhotes da casa dela.
– Ok, continue a história do café.
– Sim. Quando tomei o copinho de café do hospital de olhos, achei que era a bebida mais deliciosa qe existia. Talvez tenha sido o tédio de uma tarde inteira sentada com os olhos ardendo, mas o fato é que, depois desse dia, passei a tomar cafezinho em qualquer lugar que me oferecessem, ou que tivesse a garrafa térmica ao alcance, e sabia até dizer qual era o melhor da cidade, e qual eu não tomava mais nunca. A gente não tomava café em casa. Minha mãe e meu pai bebiam café-de-mentira, instantãneo, e desse eu nunca aprendi a gostar. Nunca escondi deles, sabe… isso.
– Bom, já é um ponto positivo. A família precisa conhecer o problema.
– Pois é. Então, um tempo depois, numa daquelas promoções de troque-pontos-por-alguma-coisa, A cafeteira chegou lá em casa. Simples, pequena, daquelas italianas que fazem o café subir com o vapor. Eu estava no último ano de colégio, e precisava de algo que me mantivesse acordada e concentrada durante as aulas, que eram o dia inteiro e às vezes à noite. Foi aí que começou de verdade… hmm…
– A dependência.
– Isso.
– Não se sinta constrangida de falar, você está aqui pra isso.
– Certo. (…) Então, eu nunca fui de dormir muito, desde criança acho isso uma perda de tempo. Quando achei uma coisa que me permitia ficar esperta além dos limites normais… enfim… não dava mais pra passar sem o café de manhã, à noite e nos intervalos do colégio, porque o diretor era muito bonzinho e queria seus alunos concentrados na aula, então deixava sempre uma garrafa à mão. Eu… eu sempre acreditei que ele me ajudava, que me deixava mais inteligente, mais ágil, que eu pensava mais rápido. Não é à toa que café é a bebida dos nerds. Bom, eu passei no vestibular pra Design, numa universidade pública a 1200km de casa. É claro que levei a cafeteira. E as noites acordada ficaram muito mais frequentes. Quando não era trabaho de faculdade, era insônia mesmo. E no outro dia eu estava menos esgotada do que deveria, por causa do café. A xícara virou uma caneca de 400ml, e de uns tempos pra cá, tenho tido dores de cabeça quando não tomo todo dia. Quer dizer, quando não dá tempo de preparar. Um dia desses, um colega meu olhou pra mim sério e disse “Line, diminua o tanto de café que você toma”. E eu sei que preciso mesmo, que isso vai acabar me matando, que eu devo ter uma úlcera do tamanho do mundo no meu estômago, que não sei por que milagre não senti ainda, que meus dentes vão ficar amarelos, mas é tão difícil. Eu preciso dele, sabe… Ontem mesmo tive que passar a noite acordada fazendo uns caderninhos, eu sabia que não ia conseguir se não tomasse… e ainda tem o cafezinho do trabalho, que sai quentinho toda tarde, é demais pra mim.
– Calma, calma. Respira… isso. Tudo que você precisa é força de vontade. Um dia de cada vez, esse é o nosso lema. Tente se afastar de tudo que possa ser tentador. Esconda suas canecas, outro dia você disse que tem uma coleção delas, não é isso?
– É… minhas canecas…
– Então, esconda as canecas, tente não ir a lugares que te lembrem café, sabe… livrarias, a maioria delas tem café, ajude sua mente a se libertar, porque você não precisa de nada que já não esteja dentro de você.
– Isso foi profundo…
[moça da recepção]
– Licença… acabei de fazer café, tá fresquinho, alguém aceita?
..
off the record: não, isso não aconteceu de verdade. Minha imaginação é fértil. Sim, eu sou viciada em café. Não, pessoas que enchem minha cabeça, eu não quero parar. Sim, meus dentes estão um pouquinho amarelos. Não, eu não tenho úlcera, nem gastrite, nem refluxo, nem um buraco no meio do estômago. Ele (meu estômago) deve ser como aquela cheerleader de Heroes, capaz de se regenerar sozinho. Sim, eu tenho dores de cabeça de vez em quando, por falta de cafeína. Não, eu não vou deixar de ir na livraria Cultura nem na Saraiva, nem jogar fora minhas canecas (até porque meus lápis, canetas, escovas de dentes e toda sorte de bugingangas ficariam órfãos sem elas). Sim, hoje é uma noite de insônia.

É, acho que tô tomando muito café…

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(soundtrack: Nirvana – Smells Like Teen Spirit)

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