meu belisco

É assim que ele me chama de vez em quando. Me chamava bem mais quando eu era menor (do tamanho de um belisco, eu acho, o que quer que isso seja). Hoje é aniversário dele. 84 anos, os mais saudáveis que já vi até hoje alguém completar. E não sei o que é que me deu de não pensar em nada inédito pra escrever pra ele, eu que me dou melhor com palavras do que com qualquer outra coisa. Nem cartão pra o presente (um almanaque de 144 páginas de palavras-cruzadas) consegui fazer. Mas enfim, escrevi a seguinte cartinha já há um tempo, quando estava em Recife morrendo de saudade. Mandei por email, mamãe imprimiu, ele leu e deve ter significado um bocado, porque uma semana depois ele e minha vó me mandaram uma graninha e umas 3 revistinhas de palavras-cruzadas, puro carinho. E sei lá, acho que vai demorar até que eu consiga traduzir melhor o quanto ele é importante pra mim.
Essa noite tive um sonho estranhíssimo (e mais estranho ainda é que faz um tempão que não tenho sonhos). Sonhei que o senhor quase morria. Tinha um problema de saúde, não sei exatamente qual, mais grave que todos os outros poquíssimos que já teve, e parecia que tinha chegado a sua hora. E eu não entendia, porque o senhor sempre foi tão saudável, parecia que ia viver pra sempre. E não me conformava por não estar por perto. Não que eu fosse ser extremamente necessária ou coisa assim, era mais por causa da saudade mal-resolvida que ia ficar depois. Mas não aconteceu. O senhor não morreu, no fim das contas. E inexplicavelmente (agora eu sei, porque foi um sonho) estava aqui, no meu apartamento, dando glória a Deus. E eu lhe dei aquele abraço que o senhor gosta tanto, dizendo exatamente isso. Que tive tanta saudade, que não ia aguentar, que Deus é bom. E o senhor passava a mão na minha cabeça, com todo o amor do mundo.

Aí acordei. E essa talvez seja a primeira vez que um sonho me leva a tomar uma atitude de verdade. Mesmo que sejam só umas palavras (e eu me dou bem com elas).

Seu Abel, eu te amo. Muito, muito, muito, mais do que eu pensei que amava até hoje. Amo o seu jeito doce de falar comigo, de viver, na verdade. Amo os seus conselhos. Amo a sua paciência, a certeza que o senhor tem de que tudo vai dar certo porque Deus está no controle. Amo a sua inteligência peculiar, sua vontade de aprender mais sempre. Acho o máximo meu avô ser capaz de resolver as palavras cruzadas mais difíceis em uma sentada, e conhecer tantas constelações, estrelas-alfa, capitais e países que ninguém nem sabe que existem, e outras coisas que o senhor gosta de dissecar naquela enciclopédia. A coisa mais fofa do mundo é quando o senhor vem lá de cima trazendo um pratinho de bolo, biscoitos ou alguma fruta, e diz “é especial pra você”. Mesmo que na verdade nem seja, aquela comidinha besta se torna especial por sua causa. Acho lindo o amor que o senhor tem por minha vó, a paixão cheia de gentilezas que existe entre os dois ainda. E o seu senso de economia então… capaz de barganhar até no caixa do supermercado, fazendo sempre o melhor negócio, esperando e estudando as oportunidades, fazendo todas as contas possíveis e imagináveis, só pra de vez em quando dizer “tome, pegue esse biscoitinho que você gosta”, e isso significar tanto.

Dizem que avô estraga. Se for pelo senhor, a pessoa que inventou isso está redondamente enganada. O senhor me faz querer comer coisas saudáveis de vez em quando, me leva a acreditar que existe SIM amor pra sempre, tem uma relação com Deus que nunca vi igual, e só me falta força de vontade pra querer ser assim. Me deu uma bênção toda especial, que quando eu era pequena, achava a maior chatice ouvir e esperar, mas agora me sinto MESMO abençoada. O senhor é o melhor avô do mundo, e eu te amo. Eu lembro do senhor, e de vez em quando preciso do seu abraço e da sua mão na minha cabeça dizendo “vai ficar tudo bem, meu belisco”. Tenho saudade de ver o senhor chegando da rua, de boné na cabeça e mão no bolso, ou então trazendo um milho verde, porque lembrou da gente. E todas essas coisinhas pequenas.

Vô, eu seu que não disse tudo, porque nem cabe no papel, mas sei lá, acho que essas palavrinhas valem pra o senhor saber que seu belisco te ama.


um beijo e um abraço daqueles,
Alininha

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parabéns, meu belisco.

(soundtrack: The Fratellis – Whistle for the Choir)
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