outros sonhos

De repente, de uma hora pra outra, eu estava toda cheia de esperanças. Por uma coisa que já parecia sem remédio, porque parecia humanamente impossível conseguir, na véspera do show, um ingresso pra ver meu amor. Depois de ouvir histórias de gente que teve que acampar na porta dos pontos de venda, e estar lá as 4 da manhã pra conseguir uma entrada, 1 mês antes do show, e pior: de gente que esperou 13 horas na fila e os ingressos esgotaram antes, já estava aceitando razoavelmente o fato de Chico ser nada mais que um amor platônico, um ídolo distante, que a gente nem sabe se existe mesmo quando não vê ao vivo.

Mas, como diz o mestre Joseph Climber, a vida é uma caixinha de surpresas. E por causa de tanta confusão que aconteceu, a produção do show resolveu abrir mais um dia, e segunda-feira da semana passada, já estavam à venda ingressos pro domingo, dessa vez sem chance pra cambista, exigindo documentos, tudo como devia ter sido feito desde o começo. E eu só faltei matar todos que não me avisaram disso. Anyway, comecei a ficar animadinha, e por 5 dias, tentei insistentemente me comunicar com a bilheteria do teatro, até que (ooooh!) no sábado à tarde, alguém teve a boa vontade de atender o telefone e dizer que sim, ainda havia ingressos.

E lá vou eu, dentro de um animado Rio Doce – CDU, pra Olinda, acionar a família toda e mais um pouco pra realizar meu sonho, atravessar a Agamenon (a avenida mais punk que já atravessei, adrenalina pura!!), dar uma voltinha no Tacaruna pra achar um caixa do Bradesco, gastar meus dedinhos e os créditos do celular pra conseguir, já perto de 8 da noite, comprar o tão desejado (e caro) ingresso, e conseguir quem me levasse pra casa depois do show. E assim, num esforço conjunto de gente que talvez nem saiba do que estava fazendo, e com zilhões de variáveis que podiam dar errado, tudo encaixou direitinho.

E no domingo, eu dormi mais pra o tempo passar rápido, e estava feliz como uma menina apaixonada. E cheguei lá mais de 2 horas antes do início previsto, e isso foi o ponto alto: ninguém avisou ao público do domingo que o show não iria começar às 21h, como tinha no ingresso, e sim às 19h. Realmente achei bem estranho o tanto de gente no saguão, quando pensei que fosse ficar solitária e ansiosa, esperando o movimento começar. Pois começou na hora em que pus o pé lá dentro. Nem deu pra tirar a clássica foto no painel enorme (que mamãe tem), nem encontrar ninguém, nem nada. Ora, eu fui ver Chico, e era só pra isso que estava ali.

E ele começou dizendo que tinha voltado a cantar, porque sentiu saudade, e que estava na boca do povo, cantando. E o público, que misturava fãs de antigamente e de hoje, meninas e senhoras apaixonadas, socialistas endinheirados, foi ao delírio. Depois, quando cantou que ela bambeia, cambaleia, é dura na queda, custa a cair em si, foi uma das coisas mais emocionantes que já ouvi na vida, porque era justamente sobre o fiapinho de sonho que ficou em mim o tempo todo, pra vê-lo de perto. Não entendi uma palavra de O Futebol, que não conhecia, e pouquíssimas de A Bela e a Fera e Ela é Dançarina, embora essa seja uma das mais fofas. E fiquei toda besta porque, no meio de um monte de pseudo-fãs, eu sabia a letra de todas as músicas do disco novo e quase todas das outras tantas. Foram muitas, mais de 30. E aí duas doidas invadiram o palco. Queria que fosse eu uma dessas meninas, queria ter coragem. Chegaram junto, tiraram foto, uma tentou tascar um beijo nele, e só fiquei com vontade de gritar, tamanho era o despeito, pra a sujeitinha acordar, que ele não era o Bono.

As palmas meio animadinhas pra a morena d’Angola que leva o chocalho amarrado na canela foram engraçadas. Ninguém sabia se devia ficar solene ou soltar toda a emoção de respirar o mesmo ar que Chico. Eu pelo menos não sabia. Não sabia se fechava os olhos pra deliciar ainda mais os ouvidos ou deixava os dois bem abertos, porque eu já sabia, meu Deus, tão fulgurante visão não se produz duas vezes no mesmo lugar. Fechei quando ele disse que o amor não tem pressa, ele pode esperar, porque simplesmente adoro essa maneira de encarar as coisas. Eu esperei, em silêncio, até achar quetinha alguma chance, e consegui ver meu amor dos olhos verdes.

Vi a lua cris, vi o avesso da montanha, o cenário era a coisa mais genial do mundo. E ficou de todas as cores. E brilhava em todos os ritmos. Adorei as músicas que ele canta no feminino, especialmente a Palavra de Mulher, que diz que vai voltar. O ponto alto foi quando Wilson das Neves subiu no palco pra cantar junto, e Chico arriscou um sambinha, que acabou na coreografia de Coisinha de Jesus. Aí, a reverência já tinha ido pro espaço. E o teatro paralisou quando ele saiu na carreira, sem olhar pra trás e nem jamais dizer adeus.

Mas todo mundo sabia que ele voltava, pra dizer que são 10 horas e o samba tá quente, deixa a menina contente. E foi aí que eu corri pro pé do palco (ou quase, que já tinha muita gente mais saidinha do que eu) e consegui ver que ele sorria e parecia feliz. Como se estivesse mesmo com saudade. E até arrisquei um sambinha, porque o clima me contagiou e meu vestido era rodado. E curti. Curti tudo, toda a felicidade, até o fim, até ele sair de verdade depois do segundo bis, sumir no mundo sem me avisar, e agora eu era louca a perguntar o que é que a vida vai fazer de mim.

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e por sonhar o impossível, ai…
(soundtrack: Chico Buarque – Porque Era Ela, Porque Era Eu)
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