universo feminino

Esse post ficaria perfeito pro dia 8. Dia em que todas as mulheres se orgulharam de ser mulheres, gaharam flores, cartões, propagandas especiais só pra elas, parabéns e panfletos de lojas baba-ovo. Mas o assunto do universo feminino que me trouxe aqui é ooooutro. E não tão agradável. É a Dona Cólica.

Não posso dizer que ela é uma velha companheira, porque naõ é, graças a Deus. Quando eu era pequena (menor), não entendia o drama que minha mãe fazia, que se trancava no quarto, fechava todas as cortinas e deixava de existir, por cerca de uma semana. Depois que fiquei mocinha (ai meu Deus, que termo!), continuei sem entender, porque não fui contemplada pelas famigeradas visitas constantes de Dona Cólica. Diferente de mamãe e de minhas melhores amigas, o que devia ser um saco pra elas. Porque eu até imaginava que fosse uma dor horrível, mas não tinha aquele olhar específico que mistura “eu sei, é a pior dor do mundo“ com “relaxe, isso passa logo“. Semre me considerei – e sempre me consideraram – uma garota de muita sorte, porque minha TPM é bem light: a clássica espinha no nariz, um certo mau humor e falta de vontade pra tudo e A vontade incontrolável de comer chocolate, mas essa nem conta muito, porque já sou chocólatra o mês inteiro… as raras vezes que Dona Cólica resolveu aparecer por aqui foram sempre rápidas e cheias de cerimônia, sem nem dar tempo de eu ter vontade de arrancar fora útero, ovários e todo o resto. Bom, isso até ontem.

Acordei, vi no espelho a tal espinha no nariz, e Dona Cólica já estava esparramada pelas trompas, já sem os sapatos e com a malinha a tiracolo. Eu não sabia, mas ela tinha vindo pra uma longa temporada (e pra cólica das boas, qualquer temporada já é beeeem longa). Me arrumei, totalmente sem inspiração, me sentindo a última bolacha do pacote: mole, amassada e feiosa. Mas uma odisséia de gráficas, folhas A3 e impressões me esperava no shopping Recife, e eu naõ podia ceder a uma dorzinha à toa daquelas.

Minha vontade era de estar toda enrolada num edredon bem fofinho, e me encolher, e apertar a barriga até Dona Cólica se tocar que naõ era bem-vinda e sair – até pelos poros, se fosse o caso. Mas pelo contrário, eu estava sob um ar-condicionado glacial, de havaianas, e a maldita gráfica não tinha seuqer uma cadeirinha. E eu, obviamente, naõ tinha um mísero Atroveran na bolsa, porque ora bolas, eu nunca tenho cólica! E também não tive a idéia genial de comprar um em qualquer uma das 3 farmácias pelas quais passei, dentro do shopping, porque minhas faculdades mentais foram seriamente afetadas pela dor. Fiquei lá, a ponto de ter um desmaio, olhando pra a má-vontade do atendente, esperando uma eternidade até que a impressora fosse calibrada, pra minhas pranchas saírem com a cor errada, me obrigando a ir na outra gráfica (não sem antes me perder no caminho), e depois voltar na primeira, e voltar na outra, e esperar mais algumas eternidades até que as 5 pranchas A3 estivessem devidamente impressas na cor certa, depois de muita cara feia e muitas explicações de que aquilo era um trabalho, eu ia ganhar nota, e tudo tinha que estar perfeito, pra outro atendente, um pouco menos mal-humorado, mas que nunca passou pelo drama dos estudantes de design, que zelam pela cor do trabalho mais do que pela própria vida. E Dona Cólica lá, implacável, não arredava o pé. Nem depois dos 12 pãezinhos de queijo com guaraná que comi, na esperança de que ficasse muito apertado pra ela lá. Pelo visto, naõ ficou. Acho que ela só não conseguiu suportar o calor que fez quando saí do pólo Norte que era o shopping Recife ontem de manhã e cheguei, com o maior alívio que alguém com cólica pode sentir, ao forno que era a cidade em volta. Acho que nunca me senti tão grata a Deus pelo sol e pelo calor. Dona Cólica foi saindo devagar, meio que com pena de me deixar, sei lá qual era a dela. O importante é que foi embora.

Não sei se a visitinha indesejada teve algo a ver com o stress de ter o trabalho pronto, impresso e perfeito, ou com minha falta de hábitos alimentares e a irregularidade do meu sono. Talvez seja só porque eu comentei, justo ontem, com Lívia, que raramente sinto essas coisas, e quando sinto, é muito rápido. Pra pagar a língua. Ou talvez pra poder balançar a cabeça e olhar com o olhar certo pra qualquer mulher que se queixe de Dona Cólica – e a vontade que dá é de anunciar pro mundo mesmo. Colocar uma plaquinha de neon na cabeça, escrito “tô com cólica, e tá doendo pra caramba, então faz o favor de não tornar meu dia ainda pior!“. E dizer “eu sei, é a pior dor que tem, mas pelo menos passa logo, toma um Atroveran“. Sei lá. A estranha sensação de ter entrado pro clubinho-das-mulheres-com-cólica. Ai meu Deus, tomara que não tenha entrado mesmo… que ela tenha percebido que não é nada bem-vinda por aqui, e que demore bem muito pra dar as caras de novo.

“tudo é dor, e toda dor vem do desejo de naõ sentirmos dor”
Legião Urbana – Quando o Sol Bater, se aplica perfeitamente.

(soundtrack: Coldplay – What If)

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