ensaio sobre a terça-feira

off the record: eu tinha dado um tempo. Mas não tenho jeito mesmo, e hoje acho até que alguns não me perdoariam se eu deixasse de comparecer. Continuo cheia de trabalhos, e com mais uns extras. Mas pra saber o motivo de eu ter escapado do castigo, tem que ler o post inteiro.

A terça-feira, inexplicavelmente, sempre foi (ainda é) um dia bom, em todas as minhas semanas. Não sei com o quê isso tem a ver, só sei que é assim.

Quando eu estudava no Vitória (3ª a 8ª série), terça era dia das aulas de arte com tia Marlove. Era o dia em que eu gostava da escola, e me melava de tinta guache, e a sala era incensada com aquele cheiro de giz de cera.

Terça foi o dia das aulas na Clave de Sol, por quase 2 anos. Eu me sentia absurdamente feliz em ir pra outra cidade (no começo levada por minha mãe, e depois sozinha, de ônibus) e fazer música. Desde o dia em que tia Mari falou que eu já podia pegar uma turma de flauta doce mais avançada. Fiquei me achando. Terça era o dia de longas viagens de carro, que eu adoro, e de ver novos amigos. Terça era o dua de provar a Didi que eu havia me dedicado sim, a semana inteira, à flauta e às partituras. Acho que nunca me esforcei tanto, em estudo nenhum, de escola ou de faculdade, quando com a flauta transversal. Eu passava a semana imaginando o que Didi ia dizer na terça. Ela e tia Mari, duas professoras maravilhosas, melhores do mundo, e pessoas melhores ainda. E numa terça-feira em que as duas disseram, como quem diz que eu ganhei um bombom, que era bom meu horário mudar, porque eu tinha passado pro Grupo Clave de Sol (os alunos que tocam de calça preta e com microfones individuais), fiquei nas nuvens, e ficava nas nuvens em todas as apresentações. Terça era o dia de passear por 1 hora no shopping, depois da aula de música, até dar a hora do ônibus – que perdi umas 3 vezes, e cujos atrasos decorrentes quase fizeram meus pais me tirarem do curso. Mas terça era o dia de saber que eles confiavam em mim, apesar de tudo.

Terça era dia de episódio inédito de Gilmore Girls no Warner Channel. Passava logo depois de beverly Hills 90210, que era na Sony, e fora a Clave de Sol, era a hora mais esperada do meu dia. 21:00. Prime Time. Lembro até hoje das chamadas. O controle era meu-e-ninguém-tasca, e a cada terça-feira eu queria ser mais Rory. Uma hora que eu aproveitava como uma sobremesa, uma hora que me deixava, de novo, a semana inteira esperando pela terça.

Terça foi o dia em que caiu meu aniversário de 15 anos. Um dia feliz e lotado de surpresas. Foi quando recebi rosas vermelhas pela primeira vez, e não foi dos meus pais. Foi de alguém que eu nem sabia que sabia que eu existia, quanto mais que gostava de mim. Ok, a história com o garoto que mandou as flores não foi muito adiante (na verdade não foi nada adiante), mas – ele não deve nem lembrar mais de nada disso – a memória da dúzia de rosas, da surpresa, das minhas colegas me olhando com uma pontinha de inveja e de quanto eu me senti feliz ao recebê-las vai ficar pra sempre. Nessa mesma terça-feira, fiz uma prova de química, fui a um estúdio ser fotografada por uma profissional, e devo confessar que odiei as fotos, ganhei 225 presentinhos de mamãe, divididos em grupos de 15 e espalhados pela casa, numa caça ao tesouro que me rendeu um atraso pra a dita prova e muitas risadas. Além de tudo, era dia de Clave de Sol, e lá fui vítima (é incrível como eu nunca descubro) de outras surpresas. Meus coleguinhas calça-preta, meus 2 pares de avós, muitos presentes, Didi tocando Valsinha pra mim (e que mais tarde me ensinou) e o bolo delicioso de tia Ana. Ainda, de brinde, uma cena impagável: meus dois avôs, seu Abel e seu Bada, brincando na moto do Game Station, e quase caindo pros lados. E depois, é claro, tudo terminou em pizza, com direito a uma palhinha, já que eu tinha acabado de sair da aula de flauta.

(nossa, acabei de ver como eu sou “família”!…) Mas voltando ao dia da semana em questão…

Terça é depois de segunda e antes de quarta, coisa que no meu saudoso 3º ano significava muita coisa. Porque segunda eu tinha 5 aulas de matemática e 4 de química e ainda trabalhava, tocando piano nos ensaios do coral de minha mãe. E quarta era dia de aula do grande mestre Arléo Barbosa, O professor de história, A Lenda de São Jorge dos Ilhéus. Dava um soooooooono! Pois bem, terça não tinha aula à tarde, o que fazia dela dia das reuniões de trabalho em grupo, sempre lá em casa. Prefiro naõ comentar aqui as proporções de trabalho, conversa, brincadeira e lanche das reuniões. Mas era bom. Terça também era dia de ver o casal 20: Aderbal e Adaílson (Dadai, o louco). Aderbal dava as aulas de geografia mais polêmicas e capazes de manter a atenção que eu já assisti. Dadai era uma criatura estranha e divertidíssima. Ninguém sabia se ele era gay (diziam que Aderbal era seu amor não correspondido) ou fumava maconha, ou os dois. E ele fazia questão de nos deixar na dúvida, enquanto explicava as técnicas de eliminação dos concorrentes no vestibular, tais como sacudir bem alto uma caneta estourada, na esperança de que respingasse na redação adversária, causando danos irreversíveis. Terça era dia da indefectível dancinha de Dadai, sempre que alguém levava um cavaquinho na mochila. Era dia de rir muito.

Terça foi o dia em que chutei praticamente todas as questões do vestibular da UESC, na prova de exatas, porque tinha já a alma leve, de ter sido aprovada na UFPE. Foi também um dia de sorte, porque sabedeuscomo eu tirei primeiro lugar no ranking do curso. Wow!

Terça, no 1º período, era dia de aula de Hans. Design e Criatividade. s pranchas quadradas, de 21cm x 21cm, com auqeles círculos difíceis de cortar e caros pra imprimir, e que tinham que significar alguma coisa. Os dias antes eram puro stress, mas só de ver os trabalhinhos prontos, terça sim terça não, eu já ficava realizada. E agora, terça é dia de chegar cedo e ir embora tarde, de sujar os dedos (e todo o resto), estragar as unhas, ficar com os pés, os braços, a coluna, tudo doendo… terça é dia de aprender um pouco da sabedoria Parisiana. Terça tem aula de Cloves, o professor que todos deviam ter a sorte de ter. Exigente na mesma medida em que é paciente: ao extremo. Dizem que ele dá a nota sentindo com as mãos as peças que a gente faz em madeira, e sabe exatamente qual foi a lixa usada. Terça é uma terapia. As horas lixando são o tempo de relaxar a cabeça cansando as mãos, e pôr todos os papos em dia com quem fica na mesma mesa enorme, lixando e soldando também. Até com o próprio Cloves, que, conhecendo bem, é um amor. terça é quando eu olho pra meus trabalhos e são meus bebês. E eu fico feliz e orgulhosa.

E finalmente hoje, terça-feira, 6 de março, é aniversário do blog!! E eu não quis festa não, porque não dá pra ficar de plantão vendo quem entra, quantos entram, quem comenta, etc. Não dá pra fazer ao vivo. Mas hoje é dia de ficar feliz com meu divã particular/público, que já tem 1 ano e muitas histórias. Comecei na folia, enquanto queimava os neurônios tentando entender HTML pra fazer um layout pra mamãe. Fui gostando da idéia, me inspirando, e acabei com um layout pronto, cor-de-rosa, um nome meio nonsense, meio confuso, mas que estava disponível pra endereço, muito tempo pra pensar e escrever, já que estava de férias por 6 meses (até começar a faculdade) e uma enorme carência de gente, morrendo de saudade de meus colegas de escola. Morrendo de vontade de conhecer a vida nova – e a vontade valeu à pena. Apaixonada, e pronta pra abrir pro mundo a felicidade por gostar de quem gostava de mim. Na época eu ainda lia o Garotas e o Cineclick todo dia, baixava músicas o tempo todo, ia ao cinema toda semana e acordava com Mel puxando meu edredon. Tinha os cabelos pretos, ondulados e enormes, e uma enorme quantidade de fotos boas. Ia ver o pôr-do-sol e o mar sempre que quisesse, porque todo dia elestavam lá, os dois, pertinho. E usava muito batom vermelho. Mas de maneira nenhuma a vida era melhor do que é agora. É só diferente. Eu precisei sair de casa pra aprender um milhão de coisas, dar valor a outras tantas, viver numa proporção muito maior do que vivia. E está (quase) tudo devidamente registrado: as brigas com o HTML, a vontade de voar, a despedida, o dia em que descobri que ele não gostava de mim, e não era pra mim, o cansaço, a descoberta da cidade, a certeza de que a faculdade é mesmo a melhor época da vida, o mau humor, o stress, a saudade de casa, da família, da praia, das férias, de coisas bobas, as opiniões sobre um milhão de coisas, a tristeza, a pura alegria, as amizades achadas, as amizades perdidas, as idiotices, a fragilidade, a esperança, a paixão fulminante que eu desisti de querer, esperei que viesse, achei que tinha vindo e finalmente só espero que venha um dia, as doideiras, as jornadas de autoconhecimento, a vida toda. 1 ano que foi uma vida toda.

Parabéns pra você, pra nós. E pra quem lê. E ainda mais pra quem comenta. Muitos anos de vida. Muitos mesmo. Pra sempre.

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e muitas felicidades. Escritas e vividas.

(soundtrack: Kylie Minogue – In Your Eyes)

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