providências funerárias

Inspirada pelo texto da Flá Wonka no Garotas, em post especial do dia de Finados, e pelas divagações de minha vovozinha querida, no mesmo dia, sobre querer o caixão mais bonito, ainda que custasse 50 mil verdinhas, resolvi deixar aqui as instruções pra minha festa de despedida. E como não costumo dar festas em vida, imagino que seja difícil imaginar como eu teria gostado, né?

Em primeiro lugar, doem meus órgãos (os que ainda prestarem depois das doses cavalares de café e coca-cola, que provavelmente serão a causa da minha morte). Se o corpo ainda estiver apresentável, o encarregado de me arrumar, por favor, lembre de como eu me vestia. Vou odiar estar com um vestido cafoninha, desses que parecem sair da confecção direto pra as funerárias, e uma maquiagem cor-de-rosa. Eu nunca fui cor-de-rosa, ué. Lembre do lápis preto na parte de baixo do olho, dando uma leve puxadinha pra fora, e do batom vermelho-quase-vinho-com-um-leve-toque-de-roxo (é, eu me maquio com aquarela). Ah, se conseguirem a roupa de Satine (Nicole Kidman em Moulin Rouge), também vale, já que mortas não precisam mais respirar e não sentem dor com espartilhos de barbatana de tubarão. E eu ia ficar bem gostosa…

Não quero cerimônia em igreja, porque é deprimente ver que o espaço é bem maior que o número de pessoas, e é extremamente difícil alguém, principalmente se for pouquíssimo sociável como eu, encher uma igreja num velório. Deus já vai ter me recebido no céu mesmo, então não tem importância. Arrumem um lugar legal, e que não tenha escadas. Porque se eu for desastrada morta do mesmo jeito que sou em vida, o caixão provavelmente vai escorregar das mãos dos carregadores e cair dramaticamente, e abrir, e meu corpo vai ficar todo bagunçado e cheio de hematomas, e vai parecer que morri por agressão de algum namorado violento. Fora o transtorno de pegar um cadáver caído da escada, incrivelmente pesado (porque parece que o peso de uma pessoa triplica depois que morre) e colocar de volta no caixão, não sem antes quebrar alguns ossinhos. O caixão, aliás, não precisa – nem deve – ser cheio de frufrus, nem de madeira deprimentemente escura. Quero simples e de bom gosto (acho que eu mesma vou desenhá-lo um dia desses). E tem que estar forrado de veludo, ou qualquer tecido fofinho, menos pelúcia, da minha cor preferida do momento. Na presente data, é vermelho. Não esqueçam de deixar um celular e um tubinho de oxigênio, pra o caso de eu não ter morrido mesmo. Se bem que, se estiver viva, vou acabar levantando empolgadíssima quando tocar Live Forever.

O velório (que palavra… fúnebre!) tem que ser memorável. Café preto bem forte, e com açúcar na medida, do jeito que eu tomo, pra os convidados. E chocolate meio-amargo. E alguma coisinha gostosa de comer, só não vale camarão. E alguma bebidinha alcoólica pra quem quiser afogar as mágoas de ter me perdido. E coca-cola, é lógico. Mas por favor, sem excessos, que depois de tanto evitar barraco, não quero um na minha última aparição pública. Mãe, não precisa se fazer de forte, como você faz sempre que alguém morre e alguém tem que tomar as providências. Podem chorar, mas riam de vez em quando lembrando de mim. Quero um monte de fotos minhas espalhadas por todo lugar, e é óbvio, no telão, na hora do discurso da família, quando o fundo musical vai ser aquele cd de Beatles For Babies. Quero que meu avô faça uma oração daquelas beeeeeeeem enormes, e que me abençôe pela última vez. Ok, não vai adiantar muita coisa, porque já vou ter passado dessa pra a melhor (muuuito melhor) mesmo… mas é bonito.

A música é importantíssima. Não dispenso Suburbano Coração, Valsinha, Todo Sentimento e mais um monte de meu amor Chico, nem Come What May, de Moulin Rouge. Tem quer ter lugar pra as tantas paródias que já inventei em família (Deus ajude mamãe, papai e o irmãozinho a lembrarem de alguma), e, é claro, Oasis e Beatles até seguir o enterro. Só não vale Eleanor Rigby, porque ninguém merece morrer como ela. Acho até que vou fazer uma listinha…

Blackbird, You’ve Got to Hide Your Love Away, Stop Crying Your Heart e Here, There and Everywhere, Quem Vai Dizer Tchau, as tristinhas, pra a hora do choro, quando estiverem vindo me ver no derradeiro leito (oooh, falei difícil… só pra não falar “caixão”, que é uma palavra tão… fúnebre!). Depois, põe pra rodar Os Saltimbancos, primeiro musical que decorei inteirinho (o segundo foi Moulin Rouge), e as músicas que ouvia quando era criança, quando estiverem passando as fotos. Nessa hora o astral do povo deve estar mais levantadinho, porque tenho certeza que algumas das fotos escolhidas vão ser hilárias. Estou até pensando em deixar uma seleção bem fácil na área de trabalho do meu pc, e um bloco de notas com as últimas instruções bem direitinho, e todas as minhas senhas da internet, pra quem encontrar primeiro fazer o favor de encerrar Orkut, MSN, Gmail, blog… odiaria ver meu nome na Profiles de Gente Morta, credo! Mas retomando o raciocínio, quando o astral estiver melhorzinho, pode tocar I’m Only Sleeping, Yellow Submarine, Olê Olá, Dura na Queda, Razorblade dos Strokes, e a pequena audácia de Twist and Shout, ou I Will Survive (se ninguém se mexer eu volto pra puxar o pé!). Pra ser um pouquinho de nada clichê, toca alguma de Robbie Williams, que é o favorito dos enterros da Inglaterra. Angels ou She’s the One, ou Something Stupid. Mas tem que terminar com Live Forever, do Oasis, é óbvio.

Se eu tiver namorado, ele tem que fazer uma declaração de amor póstuma, cantar a nossa música (que vai estar tocando ao fundo) em meio a uma piscina de lágrimas, que se não chorar eu mato, e lembrar dos nossos mínimos detalhes juntos. E jogar uma rosa na hora de descer o caixão. E nada de amiguinhas oferecidas oferecendo um ombro amigo, ok?

As rosas me lembraram um ponto importante: as famigeradas flores de enterro, tingidas das piores cores possíveis, sabe Deus com que tinta, e que ficam cheirando mal com muito pouco tempo. De jeito nenhum!!! Pode ser no máximo um buquê de rosas na minha mão, e pétalas, muitas pétalas, dentro do caixão. E se alguém mandar alguma daquelas coroas de presente, chuta que é macumba! No ambiente todo, quero o perfume que eu usava. Não o de ocasiões especiais, mas o de todo dia, que é o que todo mundo vai lembrar.

Na hora da marcha fúnebre, peloamordedeus, não me venham com aquela Kombis (é, é Kombis mesmo, kkkk) ridícula, com aquela cortininha mais ridícula ainda atrás. Escolham um lugar bonito perto do cemitério, porque eu adoraria ser carregada a pé, pelos meus priminhos queridos. Mas se não der, arranjem um carro espaçoso e pendurem latinhas barulhentas na parte de trás, e que o carro tenha um som bem potente, pra tocar The Long and Winding Road, The Masterplan e Wonderwall.

E finalmente, o que fazer com o corpo? Não quero aquela coisa mórbida de ser cremada e jogada no mar, ou então dividida em vários pouquinhos de cinza pra todo mundo, e deixar meus restos mortais sem descanso forever and ever. Podem me enterrar tranquilamente. Adoro a cena do caixão descendo pelas cordas. Só não deixem acontecer nenhum acidente nessa hora, por favor… já vi um caixão descer todo desastrado, e não é nada legal. Ninguém ri. Joguem os montinhos de terra, que nem nos funerais de filmes americanos (é patético, eu sei), e flores. Rosas e pétalas, de preferência. E é bom uma foto bonitinha e espontânea, tirada sem que eu estivesse olhando, em preto-e-branco, na lápide. E alguma frase minha – tem muitas no blog pra escolher – ou alguma autodefinição que coloquei no orkut (a atual ficaria ótima, acrescida no final de um “e que deixou saudades”).

E pronto. E não briguem pelas lembranças, peloamordedeus. Podem brigar pelas obras de arte, e pelas cadeiras desenhadas por mim, que vão valer muitos dólares, mas não pelas lembranças (Puxa, fui ficando emotiva…). Fim. Ou R.I.P, se preferirem.

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só assim pra eu descansar…
(soundtrack: Corinne Bailey Rae – Like a Star)
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