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e os deuses me convidam para dançar

Ontem tomei banho de chuva. Às duas da tarde. Dentro da federal, indo pro trabalho. Sim, eu estava arrumadinha (de maquiagem inclusive), e cheguei no laboratório de roupa e cabelos molhados, e a cara de bagunça que acaba com minha credibilidade de profissional séria (mas quem liga?).

A diferença entre “tomar chuva” e “tomar banho de chuva” é que um dos dois é horrível e chato, e o outro é libertador e uma delícia. Tomar banho de chuva é mais gostoso quando você está voltando pra casa, e não acabou de tomar um banho e passar rímel nos olhos, e de preferência sem carregar bolsa e com alguém beijável do lado. Mas mesmo fora dessas condições ideais de temperatura e pressão, eu aproveitei. Simplesmente porque tocou a música perfeita na hora certa.

Ok, as pessoas feitas de açúcar que passavam por mim correndo agoniadas segurando o caderno na cabeça devem ter achado meu ritmo e meu sorriso levemente estranhos. Sim, pessoas normais não gostam de tomar chuva, simplesmente porque não se rendem a ela. Quando começou a chover, meus pensamentos foram os seguintes, mais ou menos nessa ordem:

1. que chuvisquinho gostoso, bom pra aliviar esse calor abafado.

2. hmm, cheiro de chuva.

3. talvez não engrosse muito até eu chegar no trabalho…

4. caramba, Rita Lee? [pausa para aumentar o volume - e isso pode ser perigoso, crianças]

5. ainda bem que não tô de camiseta branca… e já que é assim, dane-se, vou correr não.

6. “Para dançaaaaaar uuuhuuu no meio fiiiiiiio” [cantando junto em voz alta de vez em quando] [pessoas olhando esquisito and I dont give a shit]

7. bando de gente besta, aproveita a chuva!

8. queria Namorado aqui comigo, nunca consegui fazer a ceninha de beijo na chuva… quer dizer, pensando melhor, ele é meio fresco com essas coisas, não ia curtir que nem eu. Esquece.

9. preciso prender o cabelo, pra chegar um pouquinho menos pshyco no trabalho.

E assim eu recebi a chuva, olhando pro alto de vez em quando e rindo. E não,eu não parei, fechei os olhos e joguei as mãos pro alto, que ninguém tava filmando, e aí também já era demais, néam. Aliás, em algum momento a coisa toda me lembrou uma cena de Ensaio Sobre a Cegueira, quando estão todos cegos, e cansados, e sujos, e morrendo de fome, e de repente chove. E sentir a água tocando o corpo deve ter sido a melhor sensação do mundo. E o engraçado é que não lembro da chuva no livro, deve ter rolado (ainda bem) uma bela licença poética pra Fernando Meirelles, que cada vez mais eu considero um gênio. Mas enfim, eu imagino como eles deviam estar se sentindo, porque a chuva, quando bate em mim, me acorda, me deixa, sei lá, mais viva. Ultimamente é o que me tem lembrado que existe alguma coisa acima do céu.

Ah. A música que me fez surtar e ser feliz debaixo da chuva foi Meio Fio (video aqui):

Onde quer que eu vá
Levo em mim o meu passado
E um tanto quanto do meu fim
Todos os instantes que vivi
Estão aqui
Os que me lembro e os que esqueci
Carrego minha morte
E o que da sorte eu fiz
O corte e também a cicatriz

Mas sigo meu destino
num yellow submarino
Acendo a luz que me conduz
E os deuses me convidam
Para dançar no meio fio
Entre o que tenho e o que tenho que perder
Pois se sou só
É só flutuando no vazio
Vou dando voz ao ar que receber

Pra ficar comigo
Corro salto, me equilibro
Entre minha neta e minha vó
Fico feliz, sigo adiante ante o perigo
Vejo o que me aflige virar pó
As vezes acredito em mim
As vezes não acredito
Também não sei se devo duvidar

Mas sigo meu destino
num yellow submarino
Acendo a luz que me conduz
E os deuses me convidam
Para dançar no meio fio
Entre o que tenho e o que tenho que perder
Pois se sou só
É só flutuando no vazio
Vou dando voz ao ar que receber

Música de Roberto de Carvalho, letra de Arnaldo Antunes, voz de Rita Lee, num ao vivo delicioso. Sabe umas músicas que são mais letra do que música, ou mais música do que letra, que você gosta por causa ou de um ou do outro? Então. Essa tem o equilíbrio perfeito, juntando aí as palmas e a euforia de show que dá pra sentir até em fones de ouvido. Sim, a letra super se encaixa, não só na música, mas em mim também, coisa que eu não experimentava já há um tempinho, que nem o banho de chuva. E é tão bom quando é assim.

(soundtrack: Rita Lee – Meio Fio)

é doce morrer no mar

Confesso que sempre confundi Caymmi com Jorge Amado quando era criança. Os dois eram tão parecidos, gordinhos, camisa florida, cabeça branca, bigode, cara de preguiça, tão baianos… Mas Caymmi, ao contrário de Jorge, nunca me fez odiar nenhuma de suas músicas só porque eram obrigadas. Caymmi foi parte de uma época deliciosa da minha vida, quando tudo era simples feito um acarajé com coca-cola. Minha mãe sempre gostou dele. Ela adora o mar, Caymmi adora o mar, aí já viu.

Ele era repertório do coral. Ele é, pra mim, do tempo que ainda se compravam cds. Ele era a canção de ninar, que de vez em quando meu pai e minha mãe cantavam juntos pra mim, naquele meu quarto que tinha coisinhas de porcelana penduradas na parede. Ele era a bronca de minha mãe quando eu usava muita maquiagem sem ter idade pra isso. Ele foi a receita de vatapá que eu decorei depois de escutar umas três vezes. Ele já esteve nas minhas mãos, no piano e na flauta, ainda que por pouco tempo. Ele é a música que presta na Bahia. Uns 2 anos atrás, a Clave de Sol fez, no dia da Música, um espetáculo inteiro só com as músicas dele. Foi emocionante, Caymmi é um dos poucos que ainda consegue me emocionar com sua música, apesar de eu preferir outros intérpretes à voz dele de verdade, talvez por tanto ouvir corais, e arranjos, e versões diferentes.

Dizem que Caymmi levou 8 anos pra terminar uma música (e não, ele não era uma pessoa atarefada). E que o povo na Bahia tem 3 velocidades: devagar, mais devagar e Caymmi. Podem dizer, é verdade mesmo. Mas se ele não fizesse música nessa velocidade, não faria at all. E sim, agora eu estou com saudade da Bahia. Daquela Bahia gostosa, que mistura a praia do Sul, vazia de gente e cheia de sol, a casa de meus avós em Olivença, com a rede na varanda, o Solar do Unhão, de Salvador, a vista do Rio Vermelho (que é onde fica a casa de Jorge Amado, não de Caymmi) e o meu pôr-do-sol preferido no mundo todo. Ah, se eu escutasse o que mamãe dizia.

e assim adormece esse homem, que nunca precisa dormir pra sonhar [João Valentão]

(soundtrack: Dorival Caymmi – Marina)

mesa de trabalho de Line Gilmore, prazer.

Photobucket

Computador, coisas coladas com durex no computador (basicamente tudo que tenho que fazer nas próximas duas semanas. besteirinha), Jones - meu toy-art particular, esquecido de presente de Curupa. Eu super queria que ele e a Barbie tivessem um relacionamento feliz e duradouro, especialmente agora perto do dia dos namorados, mas ela é de plástico e tem prazo de validade na minha mão =/ - completamente desolado com o tanto de coisas que tenho que fazer nas próximas duas semanas, pixel art no desktop, monitor #2 desligado por causa da tablet, taaaaaablet (recém ganhada linda linda maravilhosa e com mouse wireless ai que chics), caneca-presente-antiquiquíssimo-de-vó melada de café de de manhã cedo *vergonha*, caneca-de-Nescafé-ganhada-da-mãe-na-base-da-chantagem-emocional com canetas que não funcionam mais mas são bonitinhas, garrafinha de coca-cola roubada (não dá pra ver porque Jones tá na frente, mas está lá sim senhor), foto cute-cute de 15 anos atrás com Irmãozinho e um minúsculo pedacinho da bolsa que costurei quando ainda tinha tempo pra isso (preta, no cantinho direito, ó). E João Grandão ali atrás, em motion blur.

Ok, confesso que arrumei pra a foto, e normalmente não tá tão bonitinho. Mas foi só ontem (dia dessa foto) que vi como tô ficando nerd. By the way, quem é que dizia que o homem é bom, a sociedade é que o corrompe?

(soundtrack: The Cardigans – No Sleep)

e comentando a soundtrack (e pessoas, prestem atenção, porque posso estar instituindo uma nova tradição aqui no blog: comentar a música do dia, caso ela mereça ser comentada. Já quis fazer tanto isso e não fiz, não tem momento melhor que agora pra começar, né?): estou tendo um affair delicioso com The Cardigans. Tá, já conhecia os hits mais mais há um tempinho, mas fui descobrir a banda mesmo por causa do Last.fm (saaaanto Last.fm!), e a bola da vez, ou melhor a bolacha da vez é Long Gone Before Daylight (não quer baixar? ouve aqui). O melhor dos melhores de todos os discos da banda eveeeer. É todo cheio de emoção e melodias lindas e tristes – bittersweet é a palavra que define isso melhor do que qualquer outra -, a voz de Nina é macia e gostosa e feminina, tem um instrumental diferente e que enche o ar, um violão meio indie, meio folk, bem calminho, especialmente nessa música, No Sleep, que tem uma letra linda. E tem Communication, que é simplesmente A Música (e que fez Namorado ficar super com medo e se sentindo culpado, só porque mandei ele escutar depois que a gente tinha não se entendido muito bem, e foi aí que eu vi que ela é poderosa). E é pop, easy-listening, o tipo de música que fica na cabeça o dia inteiro se deixar. Super recomendável pra dias de chuva, ou pra aquela sessão de experimentar-todas-as-roupas-do-armário (porque tem umas músicas que super dá pra dançar, tipo Live and Learn), ou sei lá, presta de qualquer jeito. E só meu pequeno comentariozinho sobre a soundtrack do dia foi maior que o post. Adoro isso. E viram que fui super boazinha e coloquei bem muitos links? That’s all folks. Aguardem novas descobertas.