Mensagens com Etiquetas 'família'

no place like home

Com frio. E casaco, e meia, e cobertor de lã e edredon até o pescoço.
Com saudade de Namorado. Do abraço, do beijo, do jeito que ele fica ranzinza quando tá com sono, do cheiro. Mas não do amor, que quase dá pra ver.
Com gente nova entrando em casa.
Com barulho de tosse o dia inteiro, e pílulas e chás e nebulizações e homeopatias que, felizmente, não são pra mim.
Com todo o tempo do mundo.
Com um livro quase no fim.
E feliz por estar em casa. O único lugar do universo onde dá pra parar, diminuir o ritmo e fazer milhões de planos pra quando voltar.
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e o único lugar que rende esse tipo de foto.

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(soundtrack: não sei exatamente o nome da música, mas é de um cd de cantigas de ninar da Disney, antiiiiigo, do tempo em que eu não precisava de Frontal pra dormir)

declaração de amor torto

Ontem finalmente consegui montar meu tão adiado painel de fotos altamente egocêntricas/constrangedoras/sentimentais (e sim, ficou lindo). Aí foi dando saudade das coisas que estavam nas fotos, e não vou começar a falar delas agora, senão não acabo nunca, e tenho um vestido e uma bolsa pra costurar e um projeto inteiro de embalagem pra fazer (sim, o vestido e a bolsa são trabalhos de faculdade também).

Mas enfim, fiquei com saudade do Irmãozinho. É, isso mesmo, do meu irmão chato e insuportável, que não consegue passar 24 horas sem me tirar do sério. Deu saudade de quando minha mãe (a propósito, comecei a chamar minha mãe de “minha mãe” por causa dele, porque morria de ciúme daquela coisa que tinha chegado em casa pra atrapalhar meu reinado de filha-única, e a mãe era minha, e a coisa tinha que ter consciência disso, logo mudei de “mamãe” pra “minha mãe”) obrigava a gente a sorrir e se abraçar pra a foto. E do tempo em que nem precisava ela mandar.

E das brigas de travesseiros muito peculiares, e de quando a gente jogava soldadinhos de paraquedas da varanda do terceiro andar. E de quando eu falava alguma coisa completamente esdrúxula e ele acreditava (todo irmão mais velho faz isso). Fiquei com saudade do meu irmão, com quem nunca consegui me dar bem de verdade, porque sei lá, parece que a gente compete o tempo todo, seja lá pelo que for. Eu sei, é feio uma mocinha toda lady e delicada e sentimental dizer que sempre viveu aos tapas com o irmão mais novo, mas é a verdade. E hoje eu queria que tivesse sido diferente, mas aposto que se pudesse viver tudo de novo, ia acabar perdendo a paciência e brigando do mesmo jeito, porque as coisas que ele faz me dão nos nervos.

Eu juro que tentei ser mais paciente, ser a-irmã-mais-velha-com-a-cabeça-no-lugar. Eu podia ter tido mais paciência, é verdade. E fico me sentindo meio mal toda vez que vejo irmãos que se dão maravilhosamente bem, como Namorado e a irmã dele, ou Minha-Irmã e Minha-Irmã (são duas meninas que chamam uma à outra assim, “minha irmã” e “minha irmã”). E nem sei se ele lembra de mim agora, já que tem, sei lá, mais de um mês que a gente não se fala – tá, tem toda a questão dos custos telefônicos e dos horários da gente, e o fato de ele não usar celular, mas se a gente quisesse, dava pra se comunicar sim – e sei que é difícil pra qualquer pessoa acreditar, mas eu amo meu irmão. Que ganhou seu primeiro (e único, até onde eu sei) apelido de mim. Que ficou deesesperado uma vez que só tinha nós dois em casa e eu passei mal. Que morria de medo de cachorro, mas acabou roubando o posto de dono do coração de Mel, que é minha. Acho que é isso que todo irmão mais novo faz, chega roubando as coisas, e no final não dá pra ficar com raiva.

Aí por último, vi no orkut um depoimento lindo de um irmão mais velho pra a irmã mais nova. Ela está doente de coisa séria, e ele acabou confessando coisas que talvez não fossem ser ditas nunca se estivesse tudo bem. Aí pensei em como vai ser, se eu vou precisar ficar doente, ou ele, ou outra coisa bizarra acontecer pra a gente descobrir que se ama. Pra ele finalmente retribuir meus abraços, pra eu prestar atenção no que ele diz, pra a gente sentir que tem alguma coisa mais que o sangue, a miopia e o cabelo liso em comum.

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pedaço do painel que tem ele. Algumas das fotos mais queridas da minha vida.

(soundtrack: Fernanda Takai – Diz Que Fui Por Aí)

quase lá

Já é quase amanhã, mas ainda é hoje. O dia dela. Que não podia passar em branco aqui, Porque é por causa dela que esse blog existe, antes de tudo. É por causa dela que eu existo, ora bolas! E é dela que eu sinto essa saudade que já se conformou, mas ainda incomoda. Porque o que é que eu faço com a vontade de simplesmente olhar pra ela e falar o que estou pensando sem dizer uma palavra? O que é que eu faço com a luz do quarto, que ninguém apaga dizendo ‘‘todos a bordo?”? O que é que eu faço com os aniversários, quando antes só o que precisava era escrever ”eu te amo” num lacre de leite Ninho?

Ela faz falta, embora na maioria das vezes seja ela a dizer essas palavras. E no dia dela, eu queria fazer mais do que um post sem-vergonha quase meia-noite. Eu queria ter acordado ela de manhã, e feito qualquer besteira pro café da manhã, e ter tomado, como sempre, o primeiro gole do copo d’água. Mas depois de 20 anos de cafés da manhã e mergulhos na cama de manhã cedo e lacres de leite Ninho com declarações de amor, ela já sabe como é. E eu também. E a gente pode lembrar e rir, mesmo com uma saudade imensa.

Feliz aniversário, mãe. E boa viagem. E feliz seja todo o resto da sua vida. E vai ser, porque você fez por merecer. Te amo.
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(soundtrack: Lily Allen – Littlest Things)

almoço de domingo

Hoje eu comi moqueca de peixe. Capixaba, num restaurante português em Recife. Mas teve gosto de saudade. E da moqueca de minha vó.

Na verdade, de Zena (ou da mulher de Zena, sei lá), que preparava todo domingo a moqueca que ia pra a casa de minha vó. Eu não entendia o motivo de a gente nunca comer no restaurante, sempre pedir pra levar. Agora entendo. A moqueca tinha que ter gosto de casa de vó, cara de casa de vó, pra eu poder hoje me lembrar que era a comida-de-domingo-da-casa-de-vó.

Faz uns anos que não como aquela moqueca, mas ainda me lembro do gosto. E de como a gente brigava pelo finzinho do pirão. O pirão, aliás, era o melhor de tudo. Amarelinho de dendê, consistência perfeita, uns pedacinhos minúsculos de tomate aparecendo pelo meio. E mesmo pedindo porção extra, nunca sobrava. Lembro de meu pai catando as espinhas pra mim, eu impaciente, querendo logo comer. E tinha as espinhas, é claro. Não foram poucas as engasgadas e os sustos com elas, mas eu pelo menos não lembro de ter deixado o resto do prato sem comer por causa de alguma espinha. Seria o cúmulo do desperdício, e outra moqueca daquelas, só domingo que vem. Fora que sempre tinha o pudim de leite Moça de minha vó (esse era dela mesmo, uma das poucas coisas que dona Didi se atreve a cozinhar) pra amaciar a garganta depois.

Um belo dia, não sei exatamente quando foi, a gente parou com a tradição da moqueca. Acho que foi aí que a infância foi embora. E a moqueca de hoje, dividida com Namorado e no meio de 486237 pessoas da família dele, estava uma delícia (e não fiquei com fome até agora). Mas queria ter gosto de infância e teve gosto de saudade.

Que bobagem, era só uma moqueca de peixe num dia de domingo…

(soundtrack: Corinne Bailey Rae – Like a Star)

Ainda estou off (até fevereiro gentéam…), e ainda tenho boa parte daqueles 300 milhões de coisas pra fazer. Mas isso resume o fim-de-semana humanamente impossível:

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(soundtrack: Oasis – All Around The World)

fantasma do natal passado

Ainda lembro daquele cheiro, uma mistura de plástico e chocolate, que enchia a sala de estar no final do ano lá em casa. Minha mãe tinha uma escola de música e uma árvore de natal de 3 metros, que era montada a alguma altura de novembro. E eu ajudava a montar. Lembro que uma vez foram só Sonhos de Valsa, que ninguém podia comer até o dia do encerramento das aulas, mas a gente sempre dava um jeito de roubar algum. Tinha também o pisca-pisca colorido que tocava música e tinha 70952351 programações diferentes, e uns enfeitinhos de madeira, com os quais eu adorava brincar porque pareciam brinquedinhos antigos, e foram comprados de tia Eunice. Eram lindos, pintados à mão, e todos tinham alguma coisa dourada. Nem sei o fim que levaram. se a gente ainda morasse naquela casa, com certeza estariam no depósito (uma espécie de porão onde se guardava toda espécie de quinquilharias, que ficava no meio da escada, entre a garagem e a casa propriamente dita, e merece um post só pra ele), junto com a árvore de natal de madeira, que foi pendurada na parede por um ano ou dois, mas nunca fez tanto sucesso como a de 3 metros.

Eu me divertia montando a árvore de milhões de partes, todas muito específicas. Alguém ficava com o trabalho chato de separá-las, enquanto eu, um toco de gente de 8 anos de idade, me esticava em cima de um daqueles banquinhos redondos pra encaixar no lugar. Banquinhos, aliás, que não vou esquecer nunca. Eram da escola de música e foram feitos por encomenda, em duas alturas. Eu gostava de sentar nos mais altos, que nas aulas de teoria musical eram usados pra apoiar o caderno de música e escrever. Me sentia, sei lá, grande, eu que era sempre menor que todo mundo, mais nova que todo mundo.

Tenho saudade da escola de música. Da infância escutando as lições de Suzuki e as pecinhas de Bach no piano (deve ser por causa disso que não vivo sem música hoje), das tardes que seriam extremamente tediosas sem as outras crianças que tinham aula lá, primeiras amizades que fiz – e pelo menos uma conseguiu durar a vida toda. Dos recitais no teatro, que deixavam minha mãe uma pilha de nervos, mas saíam perfeitos no fim das contas. De ficar na recepção com Claudiane, desenhando e sujando de lápis de cor a mesinha de fórmica, das festinhas de aniversário que minha mãe organizava no terraço, da casa cheia.

O último natal daquela árvore foi o de 97, se não me engano. Minha mãe não estava lá pra montar, e a gente resolveu fazer uma surpresa pra ela, que ia chegar em casa e ver a árvore pronta. Eu queria que dessa vez tivesse neve, mas acho que não deu certo. Ela tinha ido a Salvador, fazer uma cirurgia complicada na coluna, pra consertar um braço que doía muito. Nunca mais deu aulas de piano depois disso, e não lembro bem se a escola de música fechou antes ou depois dessa viagem. Só lembro que a árvore foi parar num dos quartinhos de bagunça da casa de minha vó antes de ser doada e fazer outra pessoa feliz com aquele cheiro de plástico e chocolate. E o Natal ficou meio estranho lá em casa nos anos seguintes, como se faltasse alguma coisa. E faltava.

Parece que é modinha hoje em dia as pessoas dizerem que odeiam o Natal. Eu não odeio. Gosto um bocado, na verdade. É a melhor época do ano pra comida, e me traz boas lembranças. Primeiro da escola de música, e depois, quando não tinha mais escola, das férias na casa de minha vó com um monte de primos, na época em que não importava muito a idade da gente, e ninguém era apaixonado por ninguém, e todo mundo brincava com todo mundo, e todo mundo ia pra a piscina. Sei lá, deve ser normal ficar com o coração apertado lembrando dessas coisas. E tudo porque cheguei em casa hoje e o prédio estava todo enfeitado com pisca-piscas, e em um dos apartamentos estava tocando uma daquelas musiquinhas das 70952351 programações.

Mas nunca mais senti aquele cheiro.
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árvore de Natal do CAC – ano passado

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(soundtrack: The Cure – Boys Dont Cry)

meu belisco

É assim que ele me chama de vez em quando. Me chamava bem mais quando eu era menor (do tamanho de um belisco, eu acho, o que quer que isso seja). Hoje é aniversário dele. 84 anos, os mais saudáveis que já vi até hoje alguém completar. E não sei o que é que me deu de não pensar em nada inédito pra escrever pra ele, eu que me dou melhor com palavras do que com qualquer outra coisa. Nem cartão pra o presente (um almanaque de 144 páginas de palavras-cruzadas) consegui fazer. Mas enfim, escrevi a seguinte cartinha já há um tempo, quando estava em Recife morrendo de saudade. Mandei por email, mamãe imprimiu, ele leu e deve ter significado um bocado, porque uma semana depois ele e minha vó me mandaram uma graninha e umas 3 revistinhas de palavras-cruzadas, puro carinho. E sei lá, acho que vai demorar até que eu consiga traduzir melhor o quanto ele é importante pra mim.
Essa noite tive um sonho estranhíssimo (e mais estranho ainda é que faz um tempão que não tenho sonhos). Sonhei que o senhor quase morria. Tinha um problema de saúde, não sei exatamente qual, mais grave que todos os outros poquíssimos que já teve, e parecia que tinha chegado a sua hora. E eu não entendia, porque o senhor sempre foi tão saudável, parecia que ia viver pra sempre. E não me conformava por não estar por perto. Não que eu fosse ser extremamente necessária ou coisa assim, era mais por causa da saudade mal-resolvida que ia ficar depois. Mas não aconteceu. O senhor não morreu, no fim das contas. E inexplicavelmente (agora eu sei, porque foi um sonho) estava aqui, no meu apartamento, dando glória a Deus. E eu lhe dei aquele abraço que o senhor gosta tanto, dizendo exatamente isso. Que tive tanta saudade, que não ia aguentar, que Deus é bom. E o senhor passava a mão na minha cabeça, com todo o amor do mundo.

Aí acordei. E essa talvez seja a primeira vez que um sonho me leva a tomar uma atitude de verdade. Mesmo que sejam só umas palavras (e eu me dou bem com elas).

Seu Abel, eu te amo. Muito, muito, muito, mais do que eu pensei que amava até hoje. Amo o seu jeito doce de falar comigo, de viver, na verdade. Amo os seus conselhos. Amo a sua paciência, a certeza que o senhor tem de que tudo vai dar certo porque Deus está no controle. Amo a sua inteligência peculiar, sua vontade de aprender mais sempre. Acho o máximo meu avô ser capaz de resolver as palavras cruzadas mais difíceis em uma sentada, e conhecer tantas constelações, estrelas-alfa, capitais e países que ninguém nem sabe que existem, e outras coisas que o senhor gosta de dissecar naquela enciclopédia. A coisa mais fofa do mundo é quando o senhor vem lá de cima trazendo um pratinho de bolo, biscoitos ou alguma fruta, e diz “é especial pra você”. Mesmo que na verdade nem seja, aquela comidinha besta se torna especial por sua causa. Acho lindo o amor que o senhor tem por minha vó, a paixão cheia de gentilezas que existe entre os dois ainda. E o seu senso de economia então… capaz de barganhar até no caixa do supermercado, fazendo sempre o melhor negócio, esperando e estudando as oportunidades, fazendo todas as contas possíveis e imagináveis, só pra de vez em quando dizer “tome, pegue esse biscoitinho que você gosta”, e isso significar tanto.

Dizem que avô estraga. Se for pelo senhor, a pessoa que inventou isso está redondamente enganada. O senhor me faz querer comer coisas saudáveis de vez em quando, me leva a acreditar que existe SIM amor pra sempre, tem uma relação com Deus que nunca vi igual, e só me falta força de vontade pra querer ser assim. Me deu uma bênção toda especial, que quando eu era pequena, achava a maior chatice ouvir e esperar, mas agora me sinto MESMO abençoada. O senhor é o melhor avô do mundo, e eu te amo. Eu lembro do senhor, e de vez em quando preciso do seu abraço e da sua mão na minha cabeça dizendo “vai ficar tudo bem, meu belisco”. Tenho saudade de ver o senhor chegando da rua, de boné na cabeça e mão no bolso, ou então trazendo um milho verde, porque lembrou da gente. E todas essas coisinhas pequenas.

Vô, eu seu que não disse tudo, porque nem cabe no papel, mas sei lá, acho que essas palavrinhas valem pra o senhor saber que seu belisco te ama.


um beijo e um abraço daqueles,
Alininha

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parabéns, meu belisco.

(soundtrack: The Fratellis – Whistle for the Choir)

atrasado, mas vale.

Ele é um enigma.
Ele já foi meu companheiro de aventuras. A gente brincava de jogar soldadinhos de plásticos de pára-quedas de guardanapo do 3º andar do prédio. A gente fazia luta de travesseiros no meio da sala, e sempre um dos dois saía machucado.
Ele me deu um soco na barriga do qual nunca vou esquecer, quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, no sítio de tio Guerrinha, porque ele queria brincar no balanço e eu nao deixava porque era minha vez.
Ele provavelmente passou pra mim a alergia a frutos do mar.
Ele sempre queria o pedaço maior do chocolate e o copo mais cheio de Coca-Cola.
Ele matava formigas no quintal da casa de minha vó em Olivença com um borrifador cheio de detergente.
Ele sempre foi louco por shopping.
Ele provavelmente vai falar inglês melhor do que eu, quando chegar na minha idade.
Ele adorava as besteirinhas de $1,99 que minha vó trazia da rua.
Nós já dançamos juntos a coreografia de YMCA, num dia de fazer nada em casa (e ele vai negar isso até a morte). E ele assistia Chiquititas também, entrego logo.
Ele já foi vítima de chantagem minha, e já fez chantagem comigo.
Ele era meu cúmplice quando eu queria jogar The Sims escondido, já que minha mãe só permitia 1 hora por dia e eu sou totalmente viciada no jogo.
Ele me apresentou os filmes do Senhor dos Anéis pela primeira vez.
Ele não consegue assistir a um filme calado, e a gente sempre senta longe um do outro no cinema.
Ele vivia emburrado quando eu estava no computador.
Ele conhece muito mais coisas legais na internet do que eu. Mas não consegue ganhar de mim no Rummikub de jeito nenhum.
Ele sempre se dá melhor do que eu em qualquer tipo de jogo (menos Rummikub, é lógico).
Ele só comia se Maria desse na boca, até um passado recente. Agora, disputa comigo a última salsicha da panela de cachorro-quente (e quase sempre acaba ganhando).
Ele não é tão estudioso quanto eu sempre fui na escola, mas aposto que se diverte mais.
Ele já criou um super-herói de quadrinhos, o Fedorento Wildson, inspirado num colega de escola.
Ele adora RPG, e eu nunca consegui entender qual é a graça nisso.
Ele sempre quis um Playstation, mas minha mãe nunca quis dar.
A maneira mais eficaz de torrar a paciência dele é soltando beijinhos, no meu caso.
Ele morria de medo de cachorro quando era menor (até de um Pincher que tivemos), mas hoje é o único que chega perto do rottweiler.
Ele morre de saudade de mim, que eu sei.
Ele quase não demonstra que me ama, mas num dia que estávamos só os dois em casa e eu fiquei com febre, ele ficou super nervoso e preocupado tentando encontrar meus pais, e aí eu percebi que irmão serve pra alguma coisa. E que ele se importa comigo.
E sim, eu amo ele (e odeio o português) pra caramba. Bem muito meeeeeesmo.

Ontem foi aniversário dele, e eu obviamente lembrei de ligar, mas esqueci do presente. Qualquer dia desses mando uma coisinha de $1,99 pelo correio.
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E só pra provar que ele me ama, essa foto era a única do álbum do orkut dele.


(soundtrack: Artic Monkeys -Bigger Boys and Stolen Sweethearts)

ele e ela

parte 1 – nenhuma novidade e uma surpresinha boa

minha lua-de-mel com Chico continua, e ainda mais deliciosa depois de assistir Roda-Viva, o dvd que dei a mamãe de presente de aniversário, onde meu amor dos olhos verdes (que aqui parecem azuis) fala do início da carreira, de como largou o curso de Arquitetura da USP (!) pra viver de música, dos famosos festivais da década de 60, de quando a ditadura começou a complicar as coisas, e mais um monte de coisas interessantíssimas, pelo menos pra mim, que estou cada vez mais caidinha por ele. Minha vontade era dar o box inteiro de presente, mas o sonho esbarrou em problemas orçamentários (cof cof) e, bem, se alguém quiser me dar, ou dar a ela qualquer outro dos 10 dvds que ainda faltam, tamos aceitando. E valem a pena, porque são os únicos dvds que eu provavelmente não cometeria o sacrilégio de copiar se eles já não fossem bloqueados contra pirataria. Mas o melhor de tudo foi ter descoberto, entre outras belíssimas, Benvinda – assim mesmo, junto e com N -, uma dessas pérolas escondidas pra fã descobrir, e que parece que é pra mim. Ei-la:


Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente
Que há lugar na minha mesa
Pode ser que você venha por mero favor
Ou venha coberta de amor
Seja lá como for, venha sorrindo, ai
Benvinda, benvinda, benvinda
Que o luar está chamando
Que os jardins estão florindo
Que eu estou sozinho

Cheio de anseios e esperança
Comunico a toda a gente
Que há lugar na minha dança
Pode ser que você venha morar por aqui
Ou venha pra se despedir
Não faz mal, pode vir até mentindo, ai
Benvinda, benvinda, benvinda
Que o meu pinho está chorando
Que o meu samba está pedindo
Que eu estou sozinho

Venha iluminar meu quarto escuro
Venha entrando como o ar puro
Todo novo da manhã
Venha minha estrela madrugada
Venha minha namorada
Venha amada, venha urgente, venha irmã
Benvinda, benvinda, benvinda
Que essa aurora está custando
Que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho

Certo de estar perto da alegria
Comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha um carinho para dar
Ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda, ai
Benvinda, benvinda, benvinda
Ah, que bom que você veio
E você chegou tão linda
Eu não cantei em vão
Benvinda, benvinda, benvinda
Benvinda, benvinda
No meu coração

parte 2 – o que realmente me trouxe aqui a essa hora

O dia de hoje foi tudo, menos chato. Não teve o sol que ela tanto adora, pelo menos não o tempo todo. Teve chuva, frio, merguho no mar que deu errado, mas não tinha importância. Era pra ser feliz, e foi. Era pra ser espontâneo, e foi. Era pra ser leve, engraçado, divertido, e foi. Que nem ela, a dona do dia. Que mesmo sem convidar ninguém, teve a casa cheia (e o melhor: cheia de amigos de verdade, que vá lá, pode até ser que tenham vindo só pela comida, mas vieram de livre e espontânea vontade), e festa, e bolo e coca, e Chico, e fotos. E teve eu agoniada pra fazer um post-de-aniversário decente, mas ela não deixava a cadeira do computador esfriar nem por 5 minutos. O MSN não parava de tocar, pipocaram homenagens nos blogs por aí e zilhões de scraps no orkut que ela tinha que responder na hora. Percebi uma coisa: minha mãe é muito querida de verdade por muita gente, e ela fez por merecer. Cuidou com carinho de todas as amizades que tem, e eu espero um dia poder ser assim. E isso já está virando post-de-dia-das-mães, então vou matar 2 coelhos com um post só.

Eu nem preciso dizer, ela sabe que é responsável por muito do que eu sou hoje. Não que eu seja lá grande coisa (mas ela acha que eu sou, pra não fugir à regra), mas alguma coisa boa ficou, com certeza. Os cílios longos, a paixão por Chico e por coca-cola, o senso de obrigação de fazer as coisas direito, só pra não dizer nada muito óbvio como inteligência, beleza e um enorme senso de humor (será que eu forcei um pouquinho?). É meio lugar-comum dizer que “além de mãe, ela é minha amiga”, mas o pior é que é verdade, apesar da pieguice. Não essa amizade afrescalhada de roupinhas iguais e conversinhas de namorado, como acontece com umas mães frustradas ou medrosas que tentam se aproximar das filhas a pulso, do tipo “se não pode vencê-los, junte-se a eles”, porque isso seria medíocre demais pra nós duas. É mais como Lor e Rory mesmo, apesar de também ser meio lugar-comum, embora num universo um pouquinho mais seleto. Aff, não dá pra ser original e exclusiva o tempo todo.

Não sou afeita a essa melosidade que paira no ar nessa época do ano, nem a coisas tocantes e profundas, nem a palavras difíceis, nem a frases feitas, nem a coraçõezinhos cor-de-rosa. O necessário, ela já sabe. O meu amor, e a certeza de que, longe ou perto, com ou sem celular na bolsa, eu tô por aqui, e ela pode contar comigo.


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pra ela ^^


(soundtrack: Chico Buarque – Benvinda)

sem título

Vazio. Vontade nenhuma de conversar com ninguém. Dia que pode tranquilamente pasar em branco. Limbo. Hoje não é um daqueles dias em que necessito tanto de pessoas perto de mim. Só ficar em paz fazendo minha coisas. Estranhamente, vim passar o carnaval com a família, exatamente porque era com a família. Família de vez em quando enche o saco. Pessoas que eu não estava morrendo de vontade de ver, salas cheias de gente e barulho, onde não dá pra ler Budapeste sossegada, onde não dá pra pensar. Aí vou sozinha pra a rede, pra a varanda, pra a piscina, e todo mundo pensa (ninguém fala, mas tenho certeza que pensam) que eu estou com algum problema, ou apaixonada, ou escondendo alguma coisa, só porque não ando muito sociável. Só porque estou em dias introspectivos. E porque a única pessoa com quem talvez eu fosse sociável acabou de ir embora.

Lídia ficou aqui tanto tempo que eu me acostumei com ela por perto, me fazendo companhia no meio de um monte de meninos de 15 anos, me emprestando brincos e maquiagens, sendo sempre mais sensata do que eu, mais responsável, mais adulta. Nós nos equilibrávamos, sendo opostas. E uma sempre achava a outra mais bonita. Ela me fez um bem enorme, do tamanho da falta que faz agora. E talvez por não ter chorado ao me despedir dela no aeroporto essa madrugada, estou com a saudade entalada na garganta, que não me deixa dar mais que um sorrisinho sem graça pra quem chega fazendo graça comigo.

Eu já disse isso tudo a ela, ela já sabe que vou morrer de saudade, que ela é, provavelmente, a amiga mais leal que já tive até hoje, que ela me faz querer ser uma pessoa melhor, que eu a amo demais, mais do que uma irmã. Mas eu quis escrever, pra ver se as lágrimas finalmente vinham, essas minhas lágrimas, sempre tão carregadas de tudo. Não vieram.

Eu sou chorona de despedidas, e amante delas. Acho que elas têm que acontecer, pra que a última lembrança que se tem da pessoa, se for mesmo a última vez que se vê, seja a de um abraço, um beijo, um “tchau, mas volte logo”. Um “eu te amo” esperado por tanto tempo, algo assim. É deprimente sair sem se despedir, pensar que a última coisa que você disse pra aquela pesoa foi “me dá um copo d’água”, “tá, agora deixa eu usar o computador”, sei lá. Não falo aqui de despedidas eternas, embora se aplique também. É mais de alguém que só vou ver daqui a 1 ano, e mesmo assim, morro de saudade. Não disse nada a Lídia na hora de ela entrar no embarque, porque tudo já tinha sido dito. Dei só um abraço que é só de nós duas. E valeu.

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e a gente se divertiu.
(soundtrack: Rob Thomas – Time After Time)

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