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meu melhor amigo é o meu amor

Tive uma noite de insônia, como há tempos nâo acontecia. Daquelas de não conseguir fazer nada produtivo, só zapear na internet (ou melhor, no viciante Google Reader). Daí botei pra tocar o cd dos Tribalistas, herança que ficou de Curupa. Claro, eu já conhecia umas músicas soltas, e já tinha escutado algum tempo antes, mas deu saudade das músicas fofinhas e das letras inteligentes, e de umas experimentações meio doidas que Arnaldo Antunes gosta de fazer.

Aí tocou Velha Infância. Que era tema de novela, da época em que eu assistia alguma novela gostando mesmo. Mulheres Apaixonadas, pra ser mais específica. Isso lá nos meus 14 anos. Mas não foi a novela que marcou a música em mim. No ensino médio, tive a melhor professora de literatura EVER. Ângela, meio gordinha (tá, os meninos diriam que ela era muito gostosa, isso sim), menos de 1,60m, um enorme amor pela literatura, e pela vida, e pelo amor. No primeiro ano, pelo que me lembro (e alguém me corrija se eu estiver errada), ela ainda era solteira, mas meio enrolada com um cara. Que de vez em quando ligava na hora da aula, e deixava seus olhos brilhando. Ela trabalhava demais, mas ainda conseguia se arrumar e ser estilosa. Ela era feliz, dava pra ver.

A gente estava estudando, como acontece em todo primeiro ano, os estilos literários de cada época. O da vez era o Trovadorismo, hit da Idade Média. E os módulos de literatura da gente tinham análises chatíssimas de métrica, estilo e semântica das tais “cantigas de amigo”, e eu, apesar de adorar literatura, fosse ela qual fosse, não era muito fã de poesia, sempre preferi a prosa mil vezes. E acharia tudo aquilo um saco, se não fosse Ângela. Pois bem, um belo dia ela trouxe o clássico microsystem do colégio e um cd, que não sei se era dos Tribalistas ou da novela, mas que tinha Velha Infância. E foi genial quando ela mostrou que aquilo ali era uma cantiga de amigo musicada.

Futucando fundo na memória, porque tô com preguiça de ir no google ou no wiki, as cantigas de amigo eram escritas pelos trovadores pra suas amadas, numa época em que não se permitia falar abertamente de amor, porque, segundo a Igreja, amor era pecado. Ou algo assim. Mas eles diziam com uma ternura imensa coisas como “eu gosto de você, e gosto de ficar com você, meu riso é tão feliz contigo”, e as moças entendiam, e o mundo continuava girando apesar da Santa Inquisição e da Peste Negra.

Eu achei aquilo tudo tão doce que passei até a gostar um tiquinho de poesia (tudo ficou mais fácil depois que chegaram Manuel Bandeira e Drummond, é claro) e comecei a escrever coisas de amor pra aquele que era meu amor na época, embora não merecesse um trisco do que eu sentia. E fiz disso um hábito, escrever coisas pra garotos que cheguei a amar – e algumas viraram cartas, ou e-mails, ou posts, mas a maioria ficou guardada na gaveta -, até o dia em que um deles tornou tudo infinitamente mais fácil, sem me dar tempo sequer pra pensar em escrever alguma coisa.

Mas ontem me deu saudade. De Ângela, do primeiro ano, de mim mesma, como eu era, de como tudo era intenso e novo. De sentir de novo aquele tipo de amor que só acontece quando se tem 14 anos. Que inunda tudo, que está em todo lugar, que a única coisa que dá pra fazer com ele é sentir, sentir, sentir e esperar que passe. Sim, porque amor de 14 anos é sempre torto e não-correspondido. Mas ainda assim é amor.

E lá vou eu divagando de novo. É, acontece quando você só dorme uma hora e passa o resto do tempo lendo blogs de mulherzinha.

(soundtrack: Tribalistas – Velha Infância)

uns dias atrás

Eu sou a copiadora de memes mais descarada que conheço. Esse que vem aí eu nem lembro se alguém me indicou pra fazer muuuitas luas atrás e acabei deixando passar batido. Náo sei nem como é o nome, ou se tem um nome específico pra ele. Só se que vi em vários blogs esses dias e resolvi fazer igual, e daí? O problema é que enquanto as pessoas normalmente escrevem umas 5 frases, eu me perco lembrando das coisas e acabam saindo dois metros de texto. E não que seja ruim, muito pelo contrário. Só queria que fosse assim com a conclusáo do meu artigo, que não sai nunca =/. (E eu fico ainda me fazendo de coitadinha, quando tudo que tenho que fazer é parar de reclamar e fechar o Google Reader pra escrever as coisas direito).

Viram, já mudei de assunto de novo, coisa de DDA que esqueço que tenho – e o melhor de tudo é ficar falando sozinha na caixa de texto do WordPress uaheuaheuahe – mas vamos ao que interessa:

10 anos atrás eu tinha 10 anos. Eu passava o recreio na biblioteca da escola. Estava na quinta série, e me achava o máximo por já ter passado do primário. Eu dava um jeito de não fazer Educação física. Minha mochila era maior do que eu. Eu era a mais nova (e menor) da classe, e já odiava matemática. E minha mãe era minha professora. 10 anos atrás eu conheci a melhor professora de artes que já tive. Eu morava numa casa enorme, que tinha dois pianos e uma árvore de natal de dois metros todo ano. Eu queria ser arquiteta. Eu imaginava casas pra a Barbie. Eu brincava de barbie com Priscila e com Nanda. Com Nanda era mais legal.

5 anos atrás
meu maior guilty pleasure era ler Capricho escondido. Eu queria uma agenda da Capricho. Eu não usava mais mochila, porque já estava no primeiro ano, e mochila era coisa de criança. Eu me mudei de escola, redescobri um amigo de infância e ganhei uma melhor amiga que era o oposto de mim. Eu tirei 10 em química, e não consegui me livrar da nerdice nunca mais. Eu me apaixonei pela primeira vez, e descobri tanto as borboletas no estômago quanto a vontade de chorar até que não sobrasse nada mais em mim, de tanto que doía amar sem ter amor de volta. Ou o que eu achava que era amor. Eu recebi flores de um garoto pela primeira vez. E descobri que meu cupido era absurdamente burro. Eu comecei a escrever pra desabafar, nas folhas do meu fichário de capa de bolhinhas d’água. Eu escrevia com aquelas canetas Bic coloridas. Eu tinha um caderno só pra conversar com as amigas na hora da aula. Eu morei em duas casas diferentes nesse ano, e até hoje tenho um carinho especial por aquela em que só passei 6 meses. Eu conheci a melhor professora de música que já tive. Aprendi a tocar flauta transversal, e aprendi Chico Buarque. Eu abandonei os óculos pelas lentes de contato. Eu ia à igreja todo domingo. Eu ainda queria ser arquiteta.

2 anos atrás eu criei o blog. Eu conheci Sofia. Eu me mudei de cidade. Eu comecei um curso na federal, e não foi Arquitetura. Eu descobri o CAC. Eu morava com uma pessoa insuportável, mas o apartamento tinha uma vista incrível. Eu vi o desfile de 7 de setembro da varanda. Eu estava, em setembro, juntando (de novo) os cacos do meu coração, que foi partido em maio. E já tinha sido remendado no comecinho do ano. Eu trabalhava na empresa da família, e vi pela primeira vez como é trabalhar de verdade. Eu fui seguida por um maníaco (provavelmente inofensivo, mas aparentemente muito perigoso) durante uns dias. Eu dispensei o melhor cara que podia aparecer na minha vida naquela hora, e que era louco por mim, simplesmente porque não dava pra beijar um pensando em outro. Meu cupido ainda era muito burro. 2 anos atrás, eu adorava passar as tardes livres na livraria cultura, o que não é muito diferente de passar o recreio na biblioteca. Eu ganhei minha primeira câmera minha-de-verdade, e adorava fotografar. Eu fui de férias pra casa pela primeira vez.

mais ou menos 1 ano atrás eu estava solteiríssima, e nem ligava mais pra a burrice do meu cupido, que esse já era um caso perdido. Saía de mais uma paixão frustrada, dessa vez por puro despeito do cara em questão não enxergar o óbvio. Eu cheguei a escrever um post me declarando (ok, that was stupid). Eu conheci Carol, e comecei a trocar emails gigantes com ela, e a gente passou a se conhecer desde criança (ok, eu conheci Carol há bem mais tempo, mas ela tinha que aparecer aqui). Eu não tinha turminha na faculdade, mas tinha companhia pra almoçar. E não passava mais o recreio na biblioteca, mas ainda adorava a livraria cultura. Eu fui a uma festa a fantasia, e minha fantasia era a melhor de todas. Eu estava prestes a começar a trabalhar num lugar cheio de computadores e nerds. E beijar um deles sem nem conhecer direito.

6 meses atrás
o nerd que eu não conhecia direito quando beijei pela primeira vez era agora meu namorado há 4 meses. Meu cupido não era mais tão burro assim. O blog completou 2 anos de idade. Eu recebi um aumento no trabalho. Eu já morava sozinha, e estava aprendendo que a vida aparece nos lugares mais inimagináveis da casa, especialmente na geladeira. E que comprar frutas não era um bom negócio. Eu começava o quinto período na faculdade, e só queria voltar pra a praia deserta do mês anterior. Eu era dupla de João, e inexplicavelmente a gente deu certo com os trabalhos de resina. Eu era dupla de Cani, e descobri que, mais do que uma doida viciada em anime e muito boa no que faz, ela é uma amiga incrível (e agora Carol vai ficar com ciúme) e muito boa em roupinhas pra Barbies. 6 meses atrás eu voltei a brincar de barbie. E vi um show de Arts ‘n Crafts. E deixei Namorado subir pro meu apartamento.

1 mês atrás
Comecei a assistir Weeds com Namorado, em noites de pizza, coca-cola e Special Dark. Comecei a escrever um artigo. Comecei o sexto período. Minha máquina de costura quebrou. Comprei um celular novo, que o meu tava pedindo menos. Recebemos, Namorado e eu, um convite de casamento. Vamos. Tá pronto o vestido.

ontem fui à praia fazer um trabalho de faculdade. Troquei receitinhas com Mariana. Recebi email-gigante de Carol e respondi, apesar de ela não estar merecendo muito. Foi aniversário de Mel. Entreguei um convite de casamento que mamãe me encomendou, mas não era o dela. Tive vontade de ir ao cinema assistir Ensaio Sobre a Cegueira, mas não estava nada inspirada pra me arrumar e sair de casa. Fui assistir Weeds em casa com Namorado. Fomos chamados de última hora pra ir ao Jazz Festival (quem puder, vá sem pensar duas vezes) e num instante eu me inspirei pra me arrumar e sair de casa.  Ouvi o autêntico jazz de New Orleans, e descobri como um contrabaixo e um violão, sozinhos, podem ser tão românticos.

hoje acordei meio que escutando ainda o show de ontem, e só pra não perder o clima, botei Billie Holiday pra tocar. Experimentei de novo o vestido do casamento da semana que vem e fiz os últimos ajustes. Vi o começo da classificação do GP da Itália. Tomei Sucrilhos. Quero assistir Ensaio Sobre a Cegueira. E muito provavelmente vou querer escrever sobre (tanto o livro como o filme). Tenho que dar uma leve faxina na casa. Tenho que mandar email do trabalho na praia pro resto da equipe que não foi – bando de bestas.

amanhã quero que Namorado me acorde pra ver o GP da Itália. Só isso, por enquanto. Já começa bem.

(soundtrack: Billie Holiday – The Man I Love)

é doce morrer no mar

Confesso que sempre confundi Caymmi com Jorge Amado quando era criança. Os dois eram tão parecidos, gordinhos, camisa florida, cabeça branca, bigode, cara de preguiça, tão baianos… Mas Caymmi, ao contrário de Jorge, nunca me fez odiar nenhuma de suas músicas só porque eram obrigadas. Caymmi foi parte de uma época deliciosa da minha vida, quando tudo era simples feito um acarajé com coca-cola. Minha mãe sempre gostou dele. Ela adora o mar, Caymmi adora o mar, aí já viu.

Ele era repertório do coral. Ele é, pra mim, do tempo que ainda se compravam cds. Ele era a canção de ninar, que de vez em quando meu pai e minha mãe cantavam juntos pra mim, naquele meu quarto que tinha coisinhas de porcelana penduradas na parede. Ele era a bronca de minha mãe quando eu usava muita maquiagem sem ter idade pra isso. Ele foi a receita de vatapá que eu decorei depois de escutar umas três vezes. Ele já esteve nas minhas mãos, no piano e na flauta, ainda que por pouco tempo. Ele é a música que presta na Bahia. Uns 2 anos atrás, a Clave de Sol fez, no dia da Música, um espetáculo inteiro só com as músicas dele. Foi emocionante, Caymmi é um dos poucos que ainda consegue me emocionar com sua música, apesar de eu preferir outros intérpretes à voz dele de verdade, talvez por tanto ouvir corais, e arranjos, e versões diferentes.

Dizem que Caymmi levou 8 anos pra terminar uma música (e não, ele não era uma pessoa atarefada). E que o povo na Bahia tem 3 velocidades: devagar, mais devagar e Caymmi. Podem dizer, é verdade mesmo. Mas se ele não fizesse música nessa velocidade, não faria at all. E sim, agora eu estou com saudade da Bahia. Daquela Bahia gostosa, que mistura a praia do Sul, vazia de gente e cheia de sol, a casa de meus avós em Olivença, com a rede na varanda, o Solar do Unhão, de Salvador, a vista do Rio Vermelho (que é onde fica a casa de Jorge Amado, não de Caymmi) e o meu pôr-do-sol preferido no mundo todo. Ah, se eu escutasse o que mamãe dizia.

e assim adormece esse homem, que nunca precisa dormir pra sonhar [João Valentão]

(soundtrack: Dorival Caymmi – Marina)

declaração de amor torto

Ontem finalmente consegui montar meu tão adiado painel de fotos altamente egocêntricas/constrangedoras/sentimentais (e sim, ficou lindo). Aí foi dando saudade das coisas que estavam nas fotos, e não vou começar a falar delas agora, senão não acabo nunca, e tenho um vestido e uma bolsa pra costurar e um projeto inteiro de embalagem pra fazer (sim, o vestido e a bolsa são trabalhos de faculdade também).

Mas enfim, fiquei com saudade do Irmãozinho. É, isso mesmo, do meu irmão chato e insuportável, que não consegue passar 24 horas sem me tirar do sério. Deu saudade de quando minha mãe (a propósito, comecei a chamar minha mãe de “minha mãe” por causa dele, porque morria de ciúme daquela coisa que tinha chegado em casa pra atrapalhar meu reinado de filha-única, e a mãe era minha, e a coisa tinha que ter consciência disso, logo mudei de “mamãe” pra “minha mãe”) obrigava a gente a sorrir e se abraçar pra a foto. E do tempo em que nem precisava ela mandar.

E das brigas de travesseiros muito peculiares, e de quando a gente jogava soldadinhos de paraquedas da varanda do terceiro andar. E de quando eu falava alguma coisa completamente esdrúxula e ele acreditava (todo irmão mais velho faz isso). Fiquei com saudade do meu irmão, com quem nunca consegui me dar bem de verdade, porque sei lá, parece que a gente compete o tempo todo, seja lá pelo que for. Eu sei, é feio uma mocinha toda lady e delicada e sentimental dizer que sempre viveu aos tapas com o irmão mais novo, mas é a verdade. E hoje eu queria que tivesse sido diferente, mas aposto que se pudesse viver tudo de novo, ia acabar perdendo a paciência e brigando do mesmo jeito, porque as coisas que ele faz me dão nos nervos.

Eu juro que tentei ser mais paciente, ser a-irmã-mais-velha-com-a-cabeça-no-lugar. Eu podia ter tido mais paciência, é verdade. E fico me sentindo meio mal toda vez que vejo irmãos que se dão maravilhosamente bem, como Namorado e a irmã dele, ou Minha-Irmã e Minha-Irmã (são duas meninas que chamam uma à outra assim, “minha irmã” e “minha irmã”). E nem sei se ele lembra de mim agora, já que tem, sei lá, mais de um mês que a gente não se fala – tá, tem toda a questão dos custos telefônicos e dos horários da gente, e o fato de ele não usar celular, mas se a gente quisesse, dava pra se comunicar sim – e sei que é difícil pra qualquer pessoa acreditar, mas eu amo meu irmão. Que ganhou seu primeiro (e único, até onde eu sei) apelido de mim. Que ficou deesesperado uma vez que só tinha nós dois em casa e eu passei mal. Que morria de medo de cachorro, mas acabou roubando o posto de dono do coração de Mel, que é minha. Acho que é isso que todo irmão mais novo faz, chega roubando as coisas, e no final não dá pra ficar com raiva.

Aí por último, vi no orkut um depoimento lindo de um irmão mais velho pra a irmã mais nova. Ela está doente de coisa séria, e ele acabou confessando coisas que talvez não fossem ser ditas nunca se estivesse tudo bem. Aí pensei em como vai ser, se eu vou precisar ficar doente, ou ele, ou outra coisa bizarra acontecer pra a gente descobrir que se ama. Pra ele finalmente retribuir meus abraços, pra eu prestar atenção no que ele diz, pra a gente sentir que tem alguma coisa mais que o sangue, a miopia e o cabelo liso em comum.

Photobucket
pedaço do painel que tem ele. Algumas das fotos mais queridas da minha vida.

(soundtrack: Fernanda Takai – Diz Que Fui Por Aí)

almoço de domingo

Hoje eu comi moqueca de peixe. Capixaba, num restaurante português em Recife. Mas teve gosto de saudade. E da moqueca de minha vó.

Na verdade, de Zena (ou da mulher de Zena, sei lá), que preparava todo domingo a moqueca que ia pra a casa de minha vó. Eu não entendia o motivo de a gente nunca comer no restaurante, sempre pedir pra levar. Agora entendo. A moqueca tinha que ter gosto de casa de vó, cara de casa de vó, pra eu poder hoje me lembrar que era a comida-de-domingo-da-casa-de-vó.

Faz uns anos que não como aquela moqueca, mas ainda me lembro do gosto. E de como a gente brigava pelo finzinho do pirão. O pirão, aliás, era o melhor de tudo. Amarelinho de dendê, consistência perfeita, uns pedacinhos minúsculos de tomate aparecendo pelo meio. E mesmo pedindo porção extra, nunca sobrava. Lembro de meu pai catando as espinhas pra mim, eu impaciente, querendo logo comer. E tinha as espinhas, é claro. Não foram poucas as engasgadas e os sustos com elas, mas eu pelo menos não lembro de ter deixado o resto do prato sem comer por causa de alguma espinha. Seria o cúmulo do desperdício, e outra moqueca daquelas, só domingo que vem. Fora que sempre tinha o pudim de leite Moça de minha vó (esse era dela mesmo, uma das poucas coisas que dona Didi se atreve a cozinhar) pra amaciar a garganta depois.

Um belo dia, não sei exatamente quando foi, a gente parou com a tradição da moqueca. Acho que foi aí que a infância foi embora. E a moqueca de hoje, dividida com Namorado e no meio de 486237 pessoas da família dele, estava uma delícia (e não fiquei com fome até agora). Mas queria ter gosto de infância e teve gosto de saudade.

Que bobagem, era só uma moqueca de peixe num dia de domingo…

(soundtrack: Corinne Bailey Rae – Like a Star)

complicada e perfeitinha

Daí que tá todo mundo postando sobre suas próprias peculiaridades pessoais particulares (fui redundante?), e eu quero também. Porque uma dessas peculiaridades pessoais particulares é que eu copio boas idéias descaradamente. Eu sei que isso é muito feio vindo de alguém que tem obrigação de ter boas idéias próprias (e às vezes tenho mesmo), mas fazer o quê, quando vejo uma coisa interessante e genial que eu sei que dá pra eu mesma fazer, daquelas coisas que não entendo como não fui eu que inventei, imito meeeeeeeeesmo, algum problema? Segue a listinha então.

Eu tenho uma coisa de repetir as letras escrevendo, de acordo com a intensidade da palavra. Faço isso direeeeeto, e não sei se é chato pra ler, mas é divertido escrever assim.

Como sobremesas bem devagar. Absurdamente devagar, ao ponto de parecer que não tô gostando. Muito pelo contrário, quanto mais gostosa a sobremesa, mais eu tento estender o prazer de comer. E se tiver casquinha/cobertura/qualquer parte especial, guardo pro final. Porque eu adoro comer.

Eu adoro comer. É mais prazer do que necessidade pra mim (tipo, a comida está mais na boca do que no estômago, sabe?), e por isso não como muito, mas experimento um bocado. E é raro eu pedir a mesma coisa no cardápio mais de uma vez, a menos que seja milk shake de ovomaltine do Bobs.

Meu cabelo é um reflexo da minha auto-estima do dia. Normalmente, quando está preso num coque sem graça, é porque não acordei linda e não quero muito ver espelhos. Quando faço um rabo-de-cavalo, estou um pouquinho melhor. Mas quer me ver bem? Bem mesmo, linda, poderosa, miachando? Cabelo solto e penteado de lado, perfeito pra dar aquela jogada pra trás. E adoro quando alguém ajeita minha franja e tira da frente dos olhos.

Faço playlists estranhas. Tipo misturar Marisa Monte, Beatles, Maroon 5 e Rihanna (é, Rihanna. Confesso. Gosto de junk music de vez em quando, ê-ê-ê) no mesmo balaio de gato. E nunca salvo minhas playlists. E me arrependo às vezes, porque algumas saem realmente geniais.

Tenho umas listinhas bizarras de coisas pra fazer espalhadas por todos os pedaços de papel que estão ao alcance. Não consigo chegar nem na metade da maioria delas. E acabei de descobrir que a porta do meu armário de cozinha funciona qui nem qui um quadro branco, e dá pra escrever nela com pincel e apagar, que não mancha. E a área útil dela já está, obviamente, toda ocupada.

Guardo milhões de coisas inúteis na cabeça. Jingles e frases de propaganda, nomes de atores de Hollywood, introduções de músicas que não escutei mais de 2 vezes, coisas das aulas de biologia (o líquido tende a se deslocar do meio hipotônico para o meio hipertônico, quem lembra disso levanta a mão), alguma coisa que alguém falou num filme. Porque tudo que realmente importa já foi escrito nos bloquinhos e post-its e armários de cozinha.

Ao contrário da grande maioria das mulheres, eu levo um bom tempo pra enjoar do meu cabelo. Coisa de um ano, por aí. Fico esse tempo todo sem mexer nele, só aparando as pontas. Mas quando resolvo mudar, seja lá pra o que for (cortar/pintar/enrolar/whatever), a mudança não passa despercebida nunca.

Não bebo nada morno. Gosto das coisas bem quentes ou bem geladas. E no caso das geladas, coloco gelo em tudo, mesmo sem precisar. Porque a melhor parte de beber qualquer coisa com gelo é chupar o gelo depois. E bati o recorde de gelos numa frase só.

Vej coisas interessantes na internet, coloco nos feeds pra ler com calma depois e sempre esqueço. O que também acontece com muitas das boas idéias que penso em copiar.

Quando descubro uma música boa e apaixonante, escuto um milhão de vezes e enjôo dela em dois dias. E depois vou procurar covers da mesma, pra continuar escutando depois da overdose.

Eu me mexo demais. Falo me mexendo, tenho pernas nervosas, não paro quieta na cadeira do trabalho, dou uns chutes em quem estiver dormindo do meu lado de vez em quando – mamãe já acordou com uns roxos estranhos -, e quando estou muito quietinha, fico fazendo alguma coisa com os dedos. Namorado pode até achar que é carinho, mas é só necessidade de me mexer de alguma maneira. (é nãaaaaao, é carinho mesmo, amor).

Leio coisas que escrevi há muito tempo, ou mesmo há não tanto tempo. Emails (enviados ou não, por falta de coragem), textinhos, agendas, posts, conversas de MSN. E nessas horas, sempre aparece uma saudade de fininho. Por exemplo, voltei pro começo deste post pra ler, e vi que tá enorme, e vou parar por aqui, antes que me internem.
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E nem citei meus vícios cafeínicos e o magnetismo que tenho com paredes e quinas de mesa, que isso nem conta mais. Se alguém lembrar de qualquer coisa mais, me avisa, tá?
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(soundtrack: Beatles – Free as a Bird (a obsessão musical da vez))

fantasma do natal passado

Ainda lembro daquele cheiro, uma mistura de plástico e chocolate, que enchia a sala de estar no final do ano lá em casa. Minha mãe tinha uma escola de música e uma árvore de natal de 3 metros, que era montada a alguma altura de novembro. E eu ajudava a montar. Lembro que uma vez foram só Sonhos de Valsa, que ninguém podia comer até o dia do encerramento das aulas, mas a gente sempre dava um jeito de roubar algum. Tinha também o pisca-pisca colorido que tocava música e tinha 70952351 programações diferentes, e uns enfeitinhos de madeira, com os quais eu adorava brincar porque pareciam brinquedinhos antigos, e foram comprados de tia Eunice. Eram lindos, pintados à mão, e todos tinham alguma coisa dourada. Nem sei o fim que levaram. se a gente ainda morasse naquela casa, com certeza estariam no depósito (uma espécie de porão onde se guardava toda espécie de quinquilharias, que ficava no meio da escada, entre a garagem e a casa propriamente dita, e merece um post só pra ele), junto com a árvore de natal de madeira, que foi pendurada na parede por um ano ou dois, mas nunca fez tanto sucesso como a de 3 metros.

Eu me divertia montando a árvore de milhões de partes, todas muito específicas. Alguém ficava com o trabalho chato de separá-las, enquanto eu, um toco de gente de 8 anos de idade, me esticava em cima de um daqueles banquinhos redondos pra encaixar no lugar. Banquinhos, aliás, que não vou esquecer nunca. Eram da escola de música e foram feitos por encomenda, em duas alturas. Eu gostava de sentar nos mais altos, que nas aulas de teoria musical eram usados pra apoiar o caderno de música e escrever. Me sentia, sei lá, grande, eu que era sempre menor que todo mundo, mais nova que todo mundo.

Tenho saudade da escola de música. Da infância escutando as lições de Suzuki e as pecinhas de Bach no piano (deve ser por causa disso que não vivo sem música hoje), das tardes que seriam extremamente tediosas sem as outras crianças que tinham aula lá, primeiras amizades que fiz – e pelo menos uma conseguiu durar a vida toda. Dos recitais no teatro, que deixavam minha mãe uma pilha de nervos, mas saíam perfeitos no fim das contas. De ficar na recepção com Claudiane, desenhando e sujando de lápis de cor a mesinha de fórmica, das festinhas de aniversário que minha mãe organizava no terraço, da casa cheia.

O último natal daquela árvore foi o de 97, se não me engano. Minha mãe não estava lá pra montar, e a gente resolveu fazer uma surpresa pra ela, que ia chegar em casa e ver a árvore pronta. Eu queria que dessa vez tivesse neve, mas acho que não deu certo. Ela tinha ido a Salvador, fazer uma cirurgia complicada na coluna, pra consertar um braço que doía muito. Nunca mais deu aulas de piano depois disso, e não lembro bem se a escola de música fechou antes ou depois dessa viagem. Só lembro que a árvore foi parar num dos quartinhos de bagunça da casa de minha vó antes de ser doada e fazer outra pessoa feliz com aquele cheiro de plástico e chocolate. E o Natal ficou meio estranho lá em casa nos anos seguintes, como se faltasse alguma coisa. E faltava.

Parece que é modinha hoje em dia as pessoas dizerem que odeiam o Natal. Eu não odeio. Gosto um bocado, na verdade. É a melhor época do ano pra comida, e me traz boas lembranças. Primeiro da escola de música, e depois, quando não tinha mais escola, das férias na casa de minha vó com um monte de primos, na época em que não importava muito a idade da gente, e ninguém era apaixonado por ninguém, e todo mundo brincava com todo mundo, e todo mundo ia pra a piscina. Sei lá, deve ser normal ficar com o coração apertado lembrando dessas coisas. E tudo porque cheguei em casa hoje e o prédio estava todo enfeitado com pisca-piscas, e em um dos apartamentos estava tocando uma daquelas musiquinhas das 70952351 programações.

Mas nunca mais senti aquele cheiro.
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árvore de Natal do CAC – ano passado

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(soundtrack: The Cure – Boys Dont Cry)

meu belisco

É assim que ele me chama de vez em quando. Me chamava bem mais quando eu era menor (do tamanho de um belisco, eu acho, o que quer que isso seja). Hoje é aniversário dele. 84 anos, os mais saudáveis que já vi até hoje alguém completar. E não sei o que é que me deu de não pensar em nada inédito pra escrever pra ele, eu que me dou melhor com palavras do que com qualquer outra coisa. Nem cartão pra o presente (um almanaque de 144 páginas de palavras-cruzadas) consegui fazer. Mas enfim, escrevi a seguinte cartinha já há um tempo, quando estava em Recife morrendo de saudade. Mandei por email, mamãe imprimiu, ele leu e deve ter significado um bocado, porque uma semana depois ele e minha vó me mandaram uma graninha e umas 3 revistinhas de palavras-cruzadas, puro carinho. E sei lá, acho que vai demorar até que eu consiga traduzir melhor o quanto ele é importante pra mim.
Essa noite tive um sonho estranhíssimo (e mais estranho ainda é que faz um tempão que não tenho sonhos). Sonhei que o senhor quase morria. Tinha um problema de saúde, não sei exatamente qual, mais grave que todos os outros poquíssimos que já teve, e parecia que tinha chegado a sua hora. E eu não entendia, porque o senhor sempre foi tão saudável, parecia que ia viver pra sempre. E não me conformava por não estar por perto. Não que eu fosse ser extremamente necessária ou coisa assim, era mais por causa da saudade mal-resolvida que ia ficar depois. Mas não aconteceu. O senhor não morreu, no fim das contas. E inexplicavelmente (agora eu sei, porque foi um sonho) estava aqui, no meu apartamento, dando glória a Deus. E eu lhe dei aquele abraço que o senhor gosta tanto, dizendo exatamente isso. Que tive tanta saudade, que não ia aguentar, que Deus é bom. E o senhor passava a mão na minha cabeça, com todo o amor do mundo.

Aí acordei. E essa talvez seja a primeira vez que um sonho me leva a tomar uma atitude de verdade. Mesmo que sejam só umas palavras (e eu me dou bem com elas).

Seu Abel, eu te amo. Muito, muito, muito, mais do que eu pensei que amava até hoje. Amo o seu jeito doce de falar comigo, de viver, na verdade. Amo os seus conselhos. Amo a sua paciência, a certeza que o senhor tem de que tudo vai dar certo porque Deus está no controle. Amo a sua inteligência peculiar, sua vontade de aprender mais sempre. Acho o máximo meu avô ser capaz de resolver as palavras cruzadas mais difíceis em uma sentada, e conhecer tantas constelações, estrelas-alfa, capitais e países que ninguém nem sabe que existem, e outras coisas que o senhor gosta de dissecar naquela enciclopédia. A coisa mais fofa do mundo é quando o senhor vem lá de cima trazendo um pratinho de bolo, biscoitos ou alguma fruta, e diz “é especial pra você”. Mesmo que na verdade nem seja, aquela comidinha besta se torna especial por sua causa. Acho lindo o amor que o senhor tem por minha vó, a paixão cheia de gentilezas que existe entre os dois ainda. E o seu senso de economia então… capaz de barganhar até no caixa do supermercado, fazendo sempre o melhor negócio, esperando e estudando as oportunidades, fazendo todas as contas possíveis e imagináveis, só pra de vez em quando dizer “tome, pegue esse biscoitinho que você gosta”, e isso significar tanto.

Dizem que avô estraga. Se for pelo senhor, a pessoa que inventou isso está redondamente enganada. O senhor me faz querer comer coisas saudáveis de vez em quando, me leva a acreditar que existe SIM amor pra sempre, tem uma relação com Deus que nunca vi igual, e só me falta força de vontade pra querer ser assim. Me deu uma bênção toda especial, que quando eu era pequena, achava a maior chatice ouvir e esperar, mas agora me sinto MESMO abençoada. O senhor é o melhor avô do mundo, e eu te amo. Eu lembro do senhor, e de vez em quando preciso do seu abraço e da sua mão na minha cabeça dizendo “vai ficar tudo bem, meu belisco”. Tenho saudade de ver o senhor chegando da rua, de boné na cabeça e mão no bolso, ou então trazendo um milho verde, porque lembrou da gente. E todas essas coisinhas pequenas.

Vô, eu seu que não disse tudo, porque nem cabe no papel, mas sei lá, acho que essas palavrinhas valem pra o senhor saber que seu belisco te ama.


um beijo e um abraço daqueles,
Alininha

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parabéns, meu belisco.

(soundtrack: The Fratellis – Whistle for the Choir)

atrasado, mas vale.

Ele é um enigma.
Ele já foi meu companheiro de aventuras. A gente brincava de jogar soldadinhos de plásticos de pára-quedas de guardanapo do 3º andar do prédio. A gente fazia luta de travesseiros no meio da sala, e sempre um dos dois saía machucado.
Ele me deu um soco na barriga do qual nunca vou esquecer, quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, no sítio de tio Guerrinha, porque ele queria brincar no balanço e eu nao deixava porque era minha vez.
Ele provavelmente passou pra mim a alergia a frutos do mar.
Ele sempre queria o pedaço maior do chocolate e o copo mais cheio de Coca-Cola.
Ele matava formigas no quintal da casa de minha vó em Olivença com um borrifador cheio de detergente.
Ele sempre foi louco por shopping.
Ele provavelmente vai falar inglês melhor do que eu, quando chegar na minha idade.
Ele adorava as besteirinhas de $1,99 que minha vó trazia da rua.
Nós já dançamos juntos a coreografia de YMCA, num dia de fazer nada em casa (e ele vai negar isso até a morte). E ele assistia Chiquititas também, entrego logo.
Ele já foi vítima de chantagem minha, e já fez chantagem comigo.
Ele era meu cúmplice quando eu queria jogar The Sims escondido, já que minha mãe só permitia 1 hora por dia e eu sou totalmente viciada no jogo.
Ele me apresentou os filmes do Senhor dos Anéis pela primeira vez.
Ele não consegue assistir a um filme calado, e a gente sempre senta longe um do outro no cinema.
Ele vivia emburrado quando eu estava no computador.
Ele conhece muito mais coisas legais na internet do que eu. Mas não consegue ganhar de mim no Rummikub de jeito nenhum.
Ele sempre se dá melhor do que eu em qualquer tipo de jogo (menos Rummikub, é lógico).
Ele só comia se Maria desse na boca, até um passado recente. Agora, disputa comigo a última salsicha da panela de cachorro-quente (e quase sempre acaba ganhando).
Ele não é tão estudioso quanto eu sempre fui na escola, mas aposto que se diverte mais.
Ele já criou um super-herói de quadrinhos, o Fedorento Wildson, inspirado num colega de escola.
Ele adora RPG, e eu nunca consegui entender qual é a graça nisso.
Ele sempre quis um Playstation, mas minha mãe nunca quis dar.
A maneira mais eficaz de torrar a paciência dele é soltando beijinhos, no meu caso.
Ele morria de medo de cachorro quando era menor (até de um Pincher que tivemos), mas hoje é o único que chega perto do rottweiler.
Ele morre de saudade de mim, que eu sei.
Ele quase não demonstra que me ama, mas num dia que estávamos só os dois em casa e eu fiquei com febre, ele ficou super nervoso e preocupado tentando encontrar meus pais, e aí eu percebi que irmão serve pra alguma coisa. E que ele se importa comigo.
E sim, eu amo ele (e odeio o português) pra caramba. Bem muito meeeeeesmo.

Ontem foi aniversário dele, e eu obviamente lembrei de ligar, mas esqueci do presente. Qualquer dia desses mando uma coisinha de $1,99 pelo correio.
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E só pra provar que ele me ama, essa foto era a única do álbum do orkut dele.


(soundtrack: Artic Monkeys -Bigger Boys and Stolen Sweethearts)

ensaio sobre a terça-feira

off the record: eu tinha dado um tempo. Mas não tenho jeito mesmo, e hoje acho até que alguns não me perdoariam se eu deixasse de comparecer. Continuo cheia de trabalhos, e com mais uns extras. Mas pra saber o motivo de eu ter escapado do castigo, tem que ler o post inteiro.

A terça-feira, inexplicavelmente, sempre foi (ainda é) um dia bom, em todas as minhas semanas. Não sei com o quê isso tem a ver, só sei que é assim.

Quando eu estudava no Vitória (3ª a 8ª série), terça era dia das aulas de arte com tia Marlove. Era o dia em que eu gostava da escola, e me melava de tinta guache, e a sala era incensada com aquele cheiro de giz de cera.

Terça foi o dia das aulas na Clave de Sol, por quase 2 anos. Eu me sentia absurdamente feliz em ir pra outra cidade (no começo levada por minha mãe, e depois sozinha, de ônibus) e fazer música. Desde o dia em que tia Mari falou que eu já podia pegar uma turma de flauta doce mais avançada. Fiquei me achando. Terça era o dia de longas viagens de carro, que eu adoro, e de ver novos amigos. Terça era o dua de provar a Didi que eu havia me dedicado sim, a semana inteira, à flauta e às partituras. Acho que nunca me esforcei tanto, em estudo nenhum, de escola ou de faculdade, quando com a flauta transversal. Eu passava a semana imaginando o que Didi ia dizer na terça. Ela e tia Mari, duas professoras maravilhosas, melhores do mundo, e pessoas melhores ainda. E numa terça-feira em que as duas disseram, como quem diz que eu ganhei um bombom, que era bom meu horário mudar, porque eu tinha passado pro Grupo Clave de Sol (os alunos que tocam de calça preta e com microfones individuais), fiquei nas nuvens, e ficava nas nuvens em todas as apresentações. Terça era o dia de passear por 1 hora no shopping, depois da aula de música, até dar a hora do ônibus – que perdi umas 3 vezes, e cujos atrasos decorrentes quase fizeram meus pais me tirarem do curso. Mas terça era o dia de saber que eles confiavam em mim, apesar de tudo.

Terça era dia de episódio inédito de Gilmore Girls no Warner Channel. Passava logo depois de beverly Hills 90210, que era na Sony, e fora a Clave de Sol, era a hora mais esperada do meu dia. 21:00. Prime Time. Lembro até hoje das chamadas. O controle era meu-e-ninguém-tasca, e a cada terça-feira eu queria ser mais Rory. Uma hora que eu aproveitava como uma sobremesa, uma hora que me deixava, de novo, a semana inteira esperando pela terça.

Terça foi o dia em que caiu meu aniversário de 15 anos. Um dia feliz e lotado de surpresas. Foi quando recebi rosas vermelhas pela primeira vez, e não foi dos meus pais. Foi de alguém que eu nem sabia que sabia que eu existia, quanto mais que gostava de mim. Ok, a história com o garoto que mandou as flores não foi muito adiante (na verdade não foi nada adiante), mas – ele não deve nem lembrar mais de nada disso – a memória da dúzia de rosas, da surpresa, das minhas colegas me olhando com uma pontinha de inveja e de quanto eu me senti feliz ao recebê-las vai ficar pra sempre. Nessa mesma terça-feira, fiz uma prova de química, fui a um estúdio ser fotografada por uma profissional, e devo confessar que odiei as fotos, ganhei 225 presentinhos de mamãe, divididos em grupos de 15 e espalhados pela casa, numa caça ao tesouro que me rendeu um atraso pra a dita prova e muitas risadas. Além de tudo, era dia de Clave de Sol, e lá fui vítima (é incrível como eu nunca descubro) de outras surpresas. Meus coleguinhas calça-preta, meus 2 pares de avós, muitos presentes, Didi tocando Valsinha pra mim (e que mais tarde me ensinou) e o bolo delicioso de tia Ana. Ainda, de brinde, uma cena impagável: meus dois avôs, seu Abel e seu Bada, brincando na moto do Game Station, e quase caindo pros lados. E depois, é claro, tudo terminou em pizza, com direito a uma palhinha, já que eu tinha acabado de sair da aula de flauta.

(nossa, acabei de ver como eu sou “família”!…) Mas voltando ao dia da semana em questão…

Terça é depois de segunda e antes de quarta, coisa que no meu saudoso 3º ano significava muita coisa. Porque segunda eu tinha 5 aulas de matemática e 4 de química e ainda trabalhava, tocando piano nos ensaios do coral de minha mãe. E quarta era dia de aula do grande mestre Arléo Barbosa, O professor de história, A Lenda de São Jorge dos Ilhéus. Dava um soooooooono! Pois bem, terça não tinha aula à tarde, o que fazia dela dia das reuniões de trabalho em grupo, sempre lá em casa. Prefiro naõ comentar aqui as proporções de trabalho, conversa, brincadeira e lanche das reuniões. Mas era bom. Terça também era dia de ver o casal 20: Aderbal e Adaílson (Dadai, o louco). Aderbal dava as aulas de geografia mais polêmicas e capazes de manter a atenção que eu já assisti. Dadai era uma criatura estranha e divertidíssima. Ninguém sabia se ele era gay (diziam que Aderbal era seu amor não correspondido) ou fumava maconha, ou os dois. E ele fazia questão de nos deixar na dúvida, enquanto explicava as técnicas de eliminação dos concorrentes no vestibular, tais como sacudir bem alto uma caneta estourada, na esperança de que respingasse na redação adversária, causando danos irreversíveis. Terça era dia da indefectível dancinha de Dadai, sempre que alguém levava um cavaquinho na mochila. Era dia de rir muito.

Terça foi o dia em que chutei praticamente todas as questões do vestibular da UESC, na prova de exatas, porque tinha já a alma leve, de ter sido aprovada na UFPE. Foi também um dia de sorte, porque sabedeuscomo eu tirei primeiro lugar no ranking do curso. Wow!

Terça, no 1º período, era dia de aula de Hans. Design e Criatividade. s pranchas quadradas, de 21cm x 21cm, com auqeles círculos difíceis de cortar e caros pra imprimir, e que tinham que significar alguma coisa. Os dias antes eram puro stress, mas só de ver os trabalhinhos prontos, terça sim terça não, eu já ficava realizada. E agora, terça é dia de chegar cedo e ir embora tarde, de sujar os dedos (e todo o resto), estragar as unhas, ficar com os pés, os braços, a coluna, tudo doendo… terça é dia de aprender um pouco da sabedoria Parisiana. Terça tem aula de Cloves, o professor que todos deviam ter a sorte de ter. Exigente na mesma medida em que é paciente: ao extremo. Dizem que ele dá a nota sentindo com as mãos as peças que a gente faz em madeira, e sabe exatamente qual foi a lixa usada. Terça é uma terapia. As horas lixando são o tempo de relaxar a cabeça cansando as mãos, e pôr todos os papos em dia com quem fica na mesma mesa enorme, lixando e soldando também. Até com o próprio Cloves, que, conhecendo bem, é um amor. terça é quando eu olho pra meus trabalhos e são meus bebês. E eu fico feliz e orgulhosa.

E finalmente hoje, terça-feira, 6 de março, é aniversário do blog!! E eu não quis festa não, porque não dá pra ficar de plantão vendo quem entra, quantos entram, quem comenta, etc. Não dá pra fazer ao vivo. Mas hoje é dia de ficar feliz com meu divã particular/público, que já tem 1 ano e muitas histórias. Comecei na folia, enquanto queimava os neurônios tentando entender HTML pra fazer um layout pra mamãe. Fui gostando da idéia, me inspirando, e acabei com um layout pronto, cor-de-rosa, um nome meio nonsense, meio confuso, mas que estava disponível pra endereço, muito tempo pra pensar e escrever, já que estava de férias por 6 meses (até começar a faculdade) e uma enorme carência de gente, morrendo de saudade de meus colegas de escola. Morrendo de vontade de conhecer a vida nova – e a vontade valeu à pena. Apaixonada, e pronta pra abrir pro mundo a felicidade por gostar de quem gostava de mim. Na época eu ainda lia o Garotas e o Cineclick todo dia, baixava músicas o tempo todo, ia ao cinema toda semana e acordava com Mel puxando meu edredon. Tinha os cabelos pretos, ondulados e enormes, e uma enorme quantidade de fotos boas. Ia ver o pôr-do-sol e o mar sempre que quisesse, porque todo dia elestavam lá, os dois, pertinho. E usava muito batom vermelho. Mas de maneira nenhuma a vida era melhor do que é agora. É só diferente. Eu precisei sair de casa pra aprender um milhão de coisas, dar valor a outras tantas, viver numa proporção muito maior do que vivia. E está (quase) tudo devidamente registrado: as brigas com o HTML, a vontade de voar, a despedida, o dia em que descobri que ele não gostava de mim, e não era pra mim, o cansaço, a descoberta da cidade, a certeza de que a faculdade é mesmo a melhor época da vida, o mau humor, o stress, a saudade de casa, da família, da praia, das férias, de coisas bobas, as opiniões sobre um milhão de coisas, a tristeza, a pura alegria, as amizades achadas, as amizades perdidas, as idiotices, a fragilidade, a esperança, a paixão fulminante que eu desisti de querer, esperei que viesse, achei que tinha vindo e finalmente só espero que venha um dia, as doideiras, as jornadas de autoconhecimento, a vida toda. 1 ano que foi uma vida toda.

Parabéns pra você, pra nós. E pra quem lê. E ainda mais pra quem comenta. Muitos anos de vida. Muitos mesmo. Pra sempre.

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e muitas felicidades. Escritas e vividas.

(soundtrack: Kylie Minogue – In Your Eyes)

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